Uma carta de 25/05/2026
Oi, Larissa.
Se você está lendo isso daqui um ano, eu espero que exista um pouco mais de paz dentro do seu coração.
Não uma paz que significa ausência de saudade… porque eu acho que essa saudade nunca vai embora completamente.
Mas uma paz que permita lembrar dele sem que a dor te destrua inteira todos os dias.
Hoje, no momento em que essa carta está sendo escrita, o luto ainda mora em tudo.
Mora no silêncio da casa.
Na poltrona vazia.
Nos passos que você ainda espera escutar de madrugada indo em direção ao banheiro.
No corredor que ficou silencioso demais sem o “boa noite” dele.
Na chuva, no pão de queijo, na cevada, nas novelas da Globo, no gato em cima do telhado, nas baterias do aparelho auditivo… em pequenos detalhes que antes pareciam comuns, mas que hoje carregam ele inteiro.
E talvez essa seja a pior parte do luto: perceber que o amor continua existindo, mas a pessoa não está mais fisicamente aqui para viver esse amor com você.
Hoje você sente falta de tudo.
Do jeito dele existir.
Do jeito dele reclamar do frio usando moletom ou roupão quando nem estava tão frio assim.
Do jeito que ele gostava de observar a chuva.
Das brincadeiras mostrando a língua pra vó escondido e depois rindo sozinho.
Do cuidado silencioso de comprar pão de queijo pra você comer quando acordasse.
Do orgulho estampado nos olhos dele quando falava que você era estudiosa.
Da forma como ele amava ser chamado pelo nome dele: “Alcides Ferreira”, pronunciado suave, porque o nome dele era suave.
Você sente falta até das coisas que nunca imaginou que fariam falta.
E talvez a Larissa do futuro tenha medo de esquecer alguns detalhes.
Talvez você tenha medo de não conseguir mais lembrar exatamente da voz dele, da tosse dele, do cheiro dele, do som dos passos dele pela casa.
Mas eu quero te lembrar de uma coisa importante:
Você não esqueceu dele.
Mesmo que algumas lembranças tenham ficado menos nítidas.
Mesmo que o tempo tenha passado.
Mesmo que a vida tenha seguido.
Você não esqueceu.
Porque ele ficou em você.
Ficou na forma como você aprendeu que amor mora nas pequenas coisas.
Ficou na maneira como você olha para as pessoas com mais cuidado agora.
Ficou na saudade que transformou você profundamente.
Ficou no jeito como você entende, hoje, que presença nunca foi sobre grandiosidade… era sobre estar.
E ele sempre esteve.
Talvez hoje você já consiga sorrir mais do que chorar ao lembrar dele.
Talvez você já consiga contar histórias sobre ele sem sentir o peito desabar completamente.
E isso não significa que ele se tornou menos importante.
Significa apenas que o amor encontrou uma nova forma de existir dentro de você.
Eu espero que você tenha continuado vivendo, mesmo depois de ter sentido uma dor tão grande.
Espero que você tenha continuado tentando realizar o sonho da medicina.
E, sinceramente?
Eu espero que você tenha conseguido.
Porque ele tinha tanto orgulho de você.
Um orgulho genuíno, bonito, silencioso… daqueles que aparecem nos pequenos comentários, no brilho do olhar, na forma de falar de você para os outros.
E mesmo que ele não tenha estado fisicamente presente nas suas conquistas… eu espero que você nunca tenha deixado de sentir que ele estava ali.
Porque eu acho que estará.
E Larissa…
se em algum momento você se sentir culpada por estar feliz, por estar vivendo, por estar conseguindo seguir em frente… não se culpe.
O seu avô te amava demais para querer que você parasse de viver junto com a dor dele.
O amor de vocês nunca foi sobre sofrimento.
Foi sobre cuidado.
Presença.
Família.
Carinho nos detalhes.
E talvez seja isso que sobreviva ao luto.
O amor.
Seu avô existiu.
Foi amado profundamente.
E deixou marcas eternas em você.
E enquanto existir alguém que lembre da risada dele, do jeito dele falar, das manias, das brincadeiras, das pequenas coisas que faziam ele ser ele… uma parte dele continuará viva no mundo.
Com amor,
Da Larissa que ainda sente muita saudade do vôzinho 🤍