Sobre seus romances passageiros...
Hi there!
Eu pensei que talvez fosse interessante, nesse ponto da sua vida em que você está mais uma vez solteira, falar sobre suas desventuras amorosas. E sim, do jeito mais brega possível: ouvindo OSTs de k-dramas e refletindo sobre tudo isso.
Na sua última carta, lá em janeiro de 2023, você ainda estava com aquele sonso. E eu sei que por muito tempo você quis que aquilo desse certo. Mas, querida… nunca ia dar certo, e você já sabia disso lá no fundo. Eu entendo que você estava machucada e também confortável naquela zona de segurança que vocês tinham criado. Você até cogitou casamento, passaram pelo luto das gatinhas juntos, e tudo isso te deixou muito vulnerável. Só que a verdade é que ele nunca quis se comprometer de verdade. Nem casar, nem construir nada concreto com você (e hoje você tem muito medo de casar).
E vamos ser honestas aqui: o sexo era péssimo e você sabia. Ele era monótono, enquanto você sempre foi aventureira. Ele acomodado, você se desdobrando em vários trabalhos só para ter um pouco de liberdade financeira. Não ia dar certo, e gata, não deu. Você começou a perceber isso quando começou a trabalhar, conhecer outras pessoas, e até se interessou por outro carinha que no fim também não deu em nada. Ele era meio babaca, e naquela época você também não estava exatamente procurando compromisso nenhum. E quer saber? Ainda bem.
Agora vou puxar sua orelha por uma coisa. Você tentou manter amizade com o sonso depois de tudo. Eu sei que você se preocupava com a solidão dele, mas também abusamos um pouco da boa vontade dele e do interesse que ele ainda tinha pela gente. Hoje eu reconheço isso. Ao mesmo tempo, ele também tinha suas controvérsias, tipo viver fuçando seu celular enquanto você dormia. Sei que o machucamos, e não me orgulho disso, mas também já me perdoei porque no começo nós tentamos de verdade. Nosso plano era vir namorando para o intercâmbio, juntar dinheiro, casar e ter nossa própria casa. Só que ele não se movia pra nada e também nunca dizia claramente que não queria. Ações e consequências.
O fim disso foi péssimo, mas ao mesmo tempo meio libertador. Você deixou claro que ele morreu pra você, e a reação foi cômica: amigos e família comemoraram quando você terminou. Foi praticamente um chá de revelação na sua despedida, todo mundo ali, tinha algum motivo pra não gostar daquele namoro. Juro até a Fefe e o Keke tinha algo pra falar contra.
Depois disso vieram algumas ficadas aqui e ali, nada sério, até você conhecer alguém que realmente queria fazer aquele plano antigo funcionar: vir namorando, continuar juntos e casar depois. Só que dessa vez você já não queria mais esse roteiro. Você não queria confiar seu futuro nas mãos de um cara de novo, nem correr o risco de se sentir uma idiota como da primeira vez. E quero que saiba: não nos arrependemos nem um pouco de ter mantido firme a decisão de não vir namorando.
Quero abrir um parênteses aqui e dizer, infelizmente, a sua melhor versão segue sendo a solteira. Quando você tá num relacionamento, você entrega tudo de si pra fazer funcionar, enquanto os homens querem mais, mais e mais de você. São bestas insaciáveis de energia. É meio hilário porquê quando eles sugam tudo não te querem mais. E isso não é sobre o Timão, não totalmente, ele respeitava muito seu posicionamento apesar de ser meio carente.
Às vezes eu me pego pensando como teria sido se tivéssemos continuado com ele… mas a verdade é que nunca vamos saber.
Diferente do sonso, o nosso Timão era um cara que realmente queria te impressionar dentro do relacionamento. Vocês nunca chegaram a namorar oficialmente, mas vamos combinar: foi um namorico de verão antes de você embarcar nessa loucura de intercâmbio. Ele até queria vir atrás de você, mas você não quis e eu não te julgo nem um pouco por isso. Inclusive fico feliz que, diferente da história anterior, você não ficou correndo atrás dele nos seus momentos de carência.
Foram meses muito bons. Vocês tinham muita química, não só na cama, mas nas piadinhas internas, nas conversas, na leveza. Brigavam pouco, e quando brigavam ele quase sempre deixava você ganhar. Ele cuidava bem de você e você também cuidava bem dele. E mesmo perto do fim você não foi egoísta e disse que ele encontraria o amor de novo. E encontrou mesmo. Está namorando agora. Não sabemos com quem e espero que continue assim, porque sinceramente não vale a pena investigar.
O Timão era mais novo que você, mas sempre pareceu mais maduro por causa das circunstâncias em que cresceu. E sinto te dizer: dele você sempre vai acabar lembrando um pouco. Vocês fazem aniversário com um dia de diferença, têm o mesmo signo e ascendente… parecia a pessoa ideal, mas na hora errada. Talvez seja isso que deixa tudo um pouco mais triste.
Depois veio o intercâmbio. Você voltou ao Brasil por um tempo e percebeu que ele tinha te dado soft block e colocado uma aliança na bio. Ele ainda segue seus irmãos aquele pacto da masculinidade, né? Mas decidimos não stalkear, não procurar saber mais nada. Porque, no fundo, eu pensei: o que saber disso vai agregar na minha vida agora? Nada. Só dor gratuita.
E outra depois veio o Gringo, em que não assumimos em público, mas namoramos por três meses. Não é como se pudesse reclamar... Mas pelo menos você não disse pro Timão que jamais amaria outra pessoa e bem ele disse isso pra você, sem ressentimentos, você sabia que era uma mentira inconsciente de alguém novo no amor.
Sobre o Gringo, você o conheceu no aniversário de uma amiga do intercâmbio, num cenário meio fanfic: um barco particular de um dos amigos do marido dela. Você não estava esperando nada sério. Na verdade, ainda hoje você não está exatamente esperando nada sério de ninguém. E o mais engraçado é que ele não estava flertando só com você, mas também com a Gaby. Foi uma situação hilária. Você estava um pouco bêbada, foi julgada por isso, mas no fim foi apenas uma tarde e uma noite muito boas. Quando vocês perceberam o interesse mútuo, ficaram praticamente hipnotizados um pelo outro pelo resto da noite, e você acabou indo embora com ele.
A verdade é que existe algo em nós que eu ainda não sei explicar muito bem. Não vou fingir modéstia: somos, sim, pessoas apaixonantes. Não apenas pela aparência, embora isso também ajude um pouco, mas pela presença. Claro que não funciona com todo mundo, e ainda bem. Não somos nenhuma divindade. Mas quando existe troca de verdade, as pessoas acabam se encantando com essa leveza que a gente carrega. Espero que você nunca perca isso, mesmo depois de tudo o que já viveu e das cascas que a vida inevitavelmente cria.
Com o gringo tivemos uma noite muito intensa: sexo, conversas, risadas, mais conversas. Algo meio inebriante para os dois ele mesmo disse "I'm drunk in love". Eu não esperava que aquilo fosse virar mais do que uma história de uma noite, mas virou. Ele te convidou para tomar café da manhã no dia seguinte, e você foi. Passaram o dia juntos, você até ajudou ele quando perdeu o celular no lago, algo que, sinceramente, qualquer brasileiro de bom senso faria. Vieram vários encontros depois disso, até o dia em que ele te colocou contra a parede e disse que já te chamava de namorada para os outros. Você não queria exatamente namorar, mas estava gostando daquela nova rotina, do carinho e da sensação de ser desejada.
A Nana acha que foi love bombing, e confesso que concordamos com ela mais do que gostaríamos de admitir. Algumas pessoas disseram que você cedeu rápido demais, mas eu acho que você até demorou para abaixar a guarda. Estava tudo muito bem até aquela viagem de cruzeiro com suas amigas. Depois disso, ele mudou completamente. A verdade é que já existiam pequenas coisas que te incomodavam antes, mas você tinha decidido ignorá-las porque estava tentando se permitir amar de novo. No fundo, você também sabia que aquilo provavelmente não duraria muito. E tudo bem. Foi uma boa experiência, apesar da dor de cabeça que veio depois.
O que eu admiro mesmo é que você manteve sua palavra. Você tinha dito a ele que, se um dia terminassem, ele “morreria” para você e foi exatamente isso que aconteceu. Não vou dizer que você não sofreu ou que não sente falta de ter alguém, mas você foi muito firme. Nunca mais o procurou, e ele também nunca mais te procurou.
Hoje você até tem o Bumble instalado, mas sinceramente não parece valer muito a pena gastar energia ali, principalmente sabendo que faltam apenas seis finais de semana para você se mudar para Nova York. E, honestamente, estou orgulhosa de você. E calma: você não está morta por estar solteira. Inclusive, você até se envolveu com outro cara, um bigodudo. Mas ele também saiu de um término recente e é mais novo. Vocês flertam às vezes, mas no fundo você sabe que não é alguém que valha a pena investir emocionalmente. Vocês até tiveram uma conversa sincera sobre sexo casual e ele disse que não é muito fã disso. No fim, nem foi lá essas coisas.
Aliás, vamos falar de uma coisa importante: o Timão te acostumou mal… no melhor sentido possível. Ele meio que te salvou de uma ideia que estava fincada na sua cabeça por muito tempo — a ideia de que você precisava se preocupar com como seu corpo estava sendo visto, se estava bonita, se estava “certa”. Enquanto o sonso mal tentava te dar prazer, o Timão implorava para te fazer um oral. E agora você sabe de uma coisa muito importante: você gosta de receber oral. E você merece, linda.
Também é bonito perceber que hoje existe uma certa liberdade em relação ao seu próprio corpo e à sua sexualidade. Eu sei que nossa história tem marcas difíceis da infância, mas sinto que hoje essas marcas são mais cicatrizes do que feridas abertas. Em algum momento entendemos que nossos abusadores seguiram vivendo suas vidas enquanto nós continuávamos presas àquele passado. E decidimos que não seria mais assim. Não foi nossa culpa. E nós também merecemos viver, sentir prazer, construir memórias novas e consentidas. De alguma forma, depois que essa chave virou, muita coisa mudou e ainda bem.
Hoje estamos tranquilas. Solteiras. Às vezes carentes, às vezes irritadas com o passado, às vezes com saudade de certas histórias que já ficaram para trás. Muitas vezes imaginando que talvez alguém novo apareça em algum momento. Porque, no fim das contas, não dá para negar: somos românticas incorrigíveis. Como diria Benito: “Gracias a Dios estoy vivo, eso es lo que importa. Me he enamorado 515 veces y contigo son 516. Eso no es nada nuevo. Toca seguir, pichar y olvidar. Y más adelante, si hay que enamorarnos de nuevo, nos volvemos a enamorar”.
O amor não acabou para a gente. Tenho certeza de que, quando você estiver lendo esta carta, já terá vivido mais algumas histórias malucas e espero que sejam à altura daquele seu carioca riquinho que eu nem mencionei antes, mas que ainda interage nos seus stories. Essa história também é ótima, mas já escrevemos sobre ela antes.
Quando receber esta carta, por favor me escreva de volta e me conte como está sendo a vida em Nova York.
Com carinho,
da sua versão do presente que agora já virou passado para você.