Tempo percorrido - 5 meses

Uma carta de 17/12/2025

17 de dezembro de 2025 17 de junho de 2026
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612 palavras

Meu queridMeu querido eu do futuro,

Escrevo-te a partir de um tempo em que tudo pesa.

Um ano em que o chão pareceu instável e o coração aprendeu, à força, a esperar.

Agora são 22h12.

A noite me encontra sentada diante de um contrato — não apenas de papel, mas de despedida. A casa do Granja Olga, que foi abrigo por oito anos, tenta se reinventar em forma de venda, permuta, promessa. Há quase dois anos insistimos, batemos portas, fizemos contas, rezamos baixinho. E eis que surge uma solução improvável, nascida de um encontro casual, desses que Deus costura sem aviso. Ainda assim, tudo caminha devagar. Março parece longe. E a espera, longa demais para quem já esperou tanto.

O corpo sente o que a alma cala.

A dermatite volta como sinal de alerta. Um vinho acompanha a madrugada, tentativa pequena de acalmar o que não se resolve. É véspera de recesso forense, e os dias estão cheios de prazos, petições, urgências. A vida pede fôlego quando já me sinto cansada.

Também penso muito nas escolhas que fiz.

Sair da Del Rios e passar a trabalhar com condomínios foi uma decisão assertiva, ainda que difícil. Mesmo neste ano, essa escolha voltou a me assombrar em forma de cobranças, responsabilidades e da pesada administração do tema. Ainda assim, sei — no fundo — que foi um passo necessário, uma construção silenciosa que talvez só você, no futuro, consiga enxergar com clareza.

A Duda, nossa menina, passou em Medicina na PUC-SP. Um sonho tocado com a ponta dos dedos. Fizemos tudo: antecipamos honorários, vendemos o carro, apostamos na casa, apertamos o coração. E, ainda assim, ela escolheu esperar mais um ano. No começo, doeu. Fiquei brava, exausta, inconformada. Hoje, depois de tantas orações, percebo que há batalhas que não se vencem lutando, mas entregando. A escolha é dela. O sentido… talvez você, meu eu do futuro, já o tenha compreendido.

O Johnny também cresce diante dos meus olhos.

No próximo ano, estará no terceiro ano do ensino médio, o último. Ele escolheu Direito e dará início aos vestibulares. Vê-lo traçar seu próprio caminho, tão cedo, mistura orgulho, medo e esperança. É como se o tempo tivesse acelerado sem pedir permissão.

Também mudei de rota profissional.

Consegui um emprego em uma multinacional, mas fora do lugar onde sempre me reconheci. Trabalho com facilities, distante do jurídico que moldou quem sou. Aos 46 anos, às vezes vou a pé para o trabalho, vivo uma rotina intensa, estranha, desalinhada do meu “core”. Sei que preciso do salário, da estabilidade. Mas o coração pergunta, todos os dias, onde Deus quer que eu esteja — e quem estou me tornando nesse caminho.

Escrevo esperando que você esteja melhor.

Mais inteira.

Mais organizada por dentro.

Com respostas que hoje ainda não tenho.

Não fiz lista de desejos para 2026.

Só peço que ele esteja sendo leve, que tenha me tratado com delicadeza. Que a Lena tenha atravessado essa tormenta — quase cem dias de hospital, um atropelamento, o medo — e hoje respire saúde, paz, futuro.

Se algo ficou claro neste ano, foram duas verdades simples e profundas:

👉 Tudo pode ser pior.

👉 Deus continua sendo o Deus do milagre — como prova a vida da nossa pequena Malu.

Guarde esta carta como quem guarda um retrato de um tempo difícil, mas honesto.

Eu fiz o melhor que pude com o que tinha.

E continuei acreditando.

Até breve,

com amor e esperança,

seu eu do passado. 💛

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