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Para a Julia do futuro

17 de dezembro de 2025 17 de dezembro de 2026
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Querida,


Primeiro, quero dizer que escrevo essa carta numa tarde quente, procrastinando pra terminar o mestrado que nós tanto sonhamos. Eu espero que você, aí do outro lado, tenha nisso uma memória engraçada de como foi difícil terminar mais uma coisa. É difícil pra nós terminarmos nossas coisinhas, sempre foi, mas dessa vez você vai conseguir, como conseguiu todas as outras, e estaremos felizes, mestras, seja lá o que isso significar depois do portal. Estamos ansiosas hoje, com medo da não aprovação, com medo da mediocridade, com medo de fazer algo ainda que sentindo a burrice batendo na porta. Mas eu vou assim mesmo, espero que você possa me agradecer daí.


É engraçado escrever pra si mesma, não sei se uso eu ou nós, porque você é outra pessoa já. Eu acho que, quando ler essa carta, já serei mãe. Isso muda tudo. Acho que você é mesmo radicalmente outra, adulta, crescida. Eu já te admiro sem saber quem você é, porque a Julia de sete anos me admira bastante e acredito que a de dezoito, que é a idade com a qual me sinto agora, vai te admirar também. Espero que você tenha tido tempo e espaço pra crescer pra dentro da sua própria nova pessoa e tenha ganhado a capacidade de gerar duas novas: você mesma e a nossa Serena.


Estamos contentes. Nosso casamento é bom, Allex é um homem confiável que plantou em mim sementes de futuro que florescerão com você, tomara que tudo permaneça assim ou se transforme ainda mais em mais futuro, mais desejo, mais querer. Estou daqui pensando numa reformulação da nossa rota, que é duplamente passado e futuro: quero em 2026 retomar tudo o que amei quando era mais nova, mergulhar fundo em todas as paixões adolescentes que tivemos, que inventamos. Quero abrir um clube de leitura, quero pensar literatura e voltar a desenhar, quero ter menos pacientes, ganhar melhor e atender presencialmente, quero ver filmes esquisitos que me deixam de boca aberta e fazem deparar com a ausência ou abertura de sentido das coisas. Quero me desapegar do que os outros pensam de mim, descobrir como inventar alguém que eu devo ser também. Estou tentando descobrir como inventar você. Julia, eu senti uma súbita vontade de dizer que te amo, porque eu não sei se digo o suficiente. Eu te amo muito. Eu admiro suas cicatrizes e tudo que você passou no passado pra manter a gente de pé. Parece que é mais fácil te amar quando você não sou eu. Vou levar pra análise.


Estabeleci metas materiais pro próximo ano. Espero que estejamos andando por aí no nosso carro, que nossa casa seja confortável e tenha nossa cara, que a mamãe esteja mais perto, que você tenha plano de saúde e tenha parado de fumar. Se a mamãe fez a passagem, eu sinto muito. Estamos tentando nos preparar pra esse momento, outra vez, seja lá o que isso signifique depois do portal. Você vai sobreviver, meu amor, você sobrevive a tudo. Se ela está viva, espero que a gente possa conviver mais. Que você não tenha se esquecido do que é importante de verdade pra nós.


Nossa cabeça tem estado um turbilhão, dizem que é normal porque 2025 foi um ano 9, de encerrar ciclos, e 2026 é um ano 1, de criar novos. Escrevendo agora me parece que estou nervosa porque estou me despedindo de mim, encerrando um ciclo que começou em 2017: minha primeira sessão de análise, onde falei do pai, e deixei de falar com ele esse ano; o ano que conheci a Dandara, com quem parei de falar esse ano; ano em que terminei e voltei com o falecido; ano do meu primeiro estágio em clínica, onde o Eduardo disse que eu não aguentava a clínica e, esse ano, a clínica tem deixado de ser algo que se "aguente". No começo de 2024 nosso preço médio de sessão era oitenta reais, hoje é cento e cinquenta. Espero que você cobre bem caro aí! Porque você merece! E trabalha muito! Se está com medo dos ajustes de novo, passo pra te dar coragem.


Em 2017 abri a caixa preta da nossa infância e, em 2025, ela pôde se tornar um álbum de memórias. Está rasgado, não é dos mais bonitos, mas nossa criança conseguiu seguir. Ela conseguiu encontrar as memórias de brincar de boneca na casa da Lohany, de assistir tv comendo as sobremesas que a mamãe fazia (biscoitos recheados com refrigerante, mas só dois dedinhos), ir no McDonalds da Mirandela derramar o suco de uva na roupa porque esqueceu que não pode virar o copo porque a tampa sai. Nossa criança está, finalmente, a salvo. Conseguimos salvá-la dele, saímos do ciclo de abandonos, nós mesmas levantamos e largamos ele plantado lá. Em 2017 você admitiu para si que gostava de mulheres e saiu do armário em 2025. Você, aí do outro lado, se tornou alguém a se admirar, alguém em quem não se pode pisar -- não porque não tentem, mas você não deixa mais. Espero que você tenha podido desenvolver um feeling melhor pra amigos e pare de catar só as amizades que ninguém quer. Espero que você tenha aprendido sobre a parcialidade das coisas, que nem todo mundo é quem você espera, mas que pode ser alguém a somar.


Amor, não tenha medo da vida. Não tenha medo de estar conectada com a realidade, não tenha medo do tempo passando. A vida é boa, o que tem por vir é melhor, sempre melhor, ainda que seja ruim, porque nada é pior do que viver sem ser quem se é. E desse fardo você já largou. As redes sociais são mentira, as metas de fim de ano também, a gente faz o que a gente pode e seja lá o que você está vivendo aí, está de ótimo tamanho. Escrevo também como modo de ser doce comigo mesma e me dizer coisas que sempre digo aos outros, porque eu te amo e acho que você merece ouvir. Ser acolhida. Nossa maior conquista é sempre ter ficado viva, ter olhos pra ver, ouvidos pra ouvir, boca pra rir alto. Espero que sua risada e seu espirro fiquem cada vez mais altos, que sua existência tome cada vez mais espaço, que você tenha perdido o medo de ser vista. Espero que te vejam com os olhos que eu te vejo agora, cheia de esperança, de vontade de viver.


A Serena já nasceu? Nós engravidamos mesmo? Eu hoje quero isso com a mesma força que tenho medo. Medo de errar tudo, de não dar conta, de ser uma mãe gritona e estressada, de querer ir embora, de perder minha vida depois que ela nascer. Mas eu quero muito. Serena já nos dá lições aqui, tudo isso que crescemos tem a ver com ela. Ela quer vir, ela quer estar conosco, ela quer conhecer a Clara, o Recife, o mundo, o Rio de Janeiro, o samba, o sol, a praia. Ela quer andar de bicicleta antes do pai. Ela chora muito? Minha vida, se você estiver precisando, peça ajuda. Nem tudo vai ser como você quer. Ser mãe é abrir mão do controle, você colocou uma menina no mundo e ela vai se tornar outra coisa que não a sua menina, não se cobre de manter o controle sobre como ela vai se tornar algo. O controle isola, lembra da sua mãe, você não tem uma boneca, mas uma pessoa. Ela merece tomar suco antes da hora, ver tv sem querer porque a avó ligou sem avisar, comer mingau caso você tenha dormido e ela não. Ela precisa passar em outros colos. Ela precisa não ser você. E você precisa não ser ela. Sua vida não acabou, escreva sempre que possível, tome muita água e não deixe de olhar no espelho. Ligue pra Efigênia, pra Aninha, permita-se ter mães. Permita-se lembrar da sua, compreendê-la, perdoe ela. Em 2026 eu quero perdoar a minha mãe. Espero que você tenha conseguido.


Espero que você tenha sustentado nossas decisões desse ano e que tenha um chuveiro quente. Tomara que a gente tenha conseguido se mudar!


Continuando o panorama desse ano: ficou tudo por fazer, o que a gente fez mesmo foi sobreviver. Nosso livro favorito foi aquele da Liana Ferraz, da Olívia Guerra. Nossa música favorita foi Spring into Summer da Lizzy McAlpine. Sim, a gente tava triste e quando a gente precisa se desconectar, pensamos no inominável. Sim, você ainda sente saudade, tristeza, desejo e tudo isso tem a ver com estar passando por uma fase adolescente, depois que nossa criança sossegou. Mas estamos lidando, avante. Nosso filme favorito do ano foi Nosferatu, a série favorita foi Sharp Objects. 2025 foi o ano que você parou de tomar medicação psiquiátrica e sobreviveu bem, também foi o ano em que você aprendeu a ler tarot, quase incorporou duas vezes, conheceu sua preta velha, vovó Joana, descobriu o nome de sua pombagira, dona Rosa do Cruzeiro das Almas e se firmou na Casa Alquimia.


Estamos bem, entre mortos e feridos. Perdemos muito e saímos só com o essencial pra vida nova que nos espera. Eu realmente acredito que 2026 vai ser muito diferente pra melhor, sinto nos meus ossos a animação de uma criança com excursão da escola no dia seguinte. Espero que você esteja bem, independente de ter alcançado minhas expectativas. O seu possível é suficientemente bom pra mim, tenho orgulho de tudo que você conquista. Eu te amo, te abraçaria se pudesse. Fique bem e escreva pra nossa nós de 2027.


Julia.

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