Uma carta de 24/05/2026
Oi, Ana de 34 anos.
Eu queria muito saber quem você virou.
Nesse momento eu tenho 29 anos e estou sentada tentando escrever uma carta sem transformar tudo em um monólogo dramático de sofrimento emocional, mas acho que isso já faz parte da nossa personalidade.
Se tudo deu minimamente certo, talvez você esteja lendo isso com um pouco de vergonha alheia da quantidade de surtos emocionais que existiam dentro da nossa cabeça em 2026. Mas espero também que leia com carinho, porque eu sei que a gente estava tentando sobreviver do melhor jeito possível.
Hoje eu vou sair com a Bianca.
E meu Deus, eu tô nervosa.
Talvez quando você estiver lendo isso tudo pareça pequeno, mas pra mim não é. Porque esse date representa uma coisa muito maior: é a primeira vez, depois de muito tempo, que eu sinto que minha vida não acabou junto com uma relação.
Isso parece simples quando escrito, mas você sabe o inferno que foi chegar até aqui.
Você lembra como eram as primeiras cartas?
Eu parecia assombrada.
Tudo me fazia voltar pra Júlia.
Tudo parecia definitivo.
Eu tinha medo de nunca mais gostar de alguém daquele jeito, medo de nunca mais ser escolhida, medo de não existir fora daquela dor.
E agora olha pra mim.
Tô surtando porque uma mulher alta e bonita vai me encontrar às 18h.
Tomei banho às 14h.
Pensei na roupa como se fosse uma cerimônia histórica.
E tô aqui pensando se ela vai gostar de mim pessoalmente ou se vai perceber todos os defeitos que eu tento esconder quando alguém chega perto demais.
Mas, ao mesmo tempo, existe uma coisa muito bonita acontecendo:
eu me sinto viva de novo.
Ansiosa, surtando, preocupada com o cabelo caindo, nervosa com uma mulher de 1,83 de altura e feliz por conseguir sentir algo por alguém sem parecer que estou traindo o passado.
Acho que essa ainda é uma insegurança nossa:
o medo de decepcionar quando as pessoas nos conhecem de verdade.
Mas também acho que melhorei.
Hoje eu consigo perceber quando algo me machuca.
Consigo admitir desconfortos.
Consigo falar “isso não tá me fazendo bem”.
E talvez isso pareça pouco, mas pra mim é gigantesco, porque antes eu suportava qualquer coisa só pra não ser abandonada.
Acho que essa foi a primeira fase da nossa vida em que comecei a perceber que a dor não seria eterna. Não porque eu esqueci tudo o que aconteceu, mas porque finalmente comecei a voltar pra mim.
Espero que nesses cinco anos você tenha aprendido algumas coisas que eu ainda estou tentando entender agora.
Espero que você tenha parado de achar que precisa se moldar pra merecer amor.
Espero que tenha aprendido a não confundir intensidade com conexão.
Espero que tenha encontrado alguém — ou encontrado a si mesma — de um jeito mais leve.
Espero que ainda consiga sentir as coisas intensamente sem deixar que elas destruam você.
Espero que tenha encontrado alguém que faça amor parecer descanso, não sobrevivência.
E eu preciso perguntar:
a gente ficou bem?
Tipo… bem de verdade?
Ou pelo menos melhor?
A mamãe tá saudável?
O Rasga Mamãe ficou bem?
Nosso cabelo resistiu?
A gente ainda chora ouvindo música no ônibus?
Ainda escuta Baco Exu olhando pela janela e criando cenas inexistentes na cabeça?
Ainda cria teorias mirabolantes depois de duas horas sem resposta no WhatsApp?
Ainda sente saudade de versões antigas de nós mesmas às vezes?
Eu queria tanto te ver agora.
Tenho curiosidade sobre quem conseguimos nos tornar depois de tudo.
Porque, sinceramente?
Por muito tempo eu achei que não sobreviveríamos emocionalmente a certas coisas.
Mas sobrevivemos.
E acho que isso merece ser lembrado.
Talvez essa seja a verdadeira cura:
não esquecer o que aconteceu, mas conseguir continuar vivendo mesmo depois.
Com amor,
a tua versão de 2026.