Uma carta de 23/10/2025
De mim pra mim
Eu não sei se você vai entender isso, se é que vai ler, dadas as circunstâncias você pode nem estar mais aqui. Essa é minha carta de adeus, queria usar a palavra com s, mas me pareceu pesado demais. Faz um tempo que as coisas meio que perderam o sentido, o brilho, cansei, perdi a vontade de lutar, de continuar, fiz um curso que mal paga meu sustento, perdi a única pessoa que me entendia no meio desse caos chamado vida, não vejo mais motivos pra seguir. É difícil escrever isso quando se luta pela vida de tantas pessoas, e o sorriso delas me passa pela cabeça agora, os olhares esperançosos, como se eu tivesse a cura pra todos os males emocionais que nos rondam, fico pensando o que vão dizer quando eu me for, ou o que diriam agora se soubessem quão quebrada me sinto por dentro, um jarro decorativo, jogado a esmo na vida, todo espatifado, perdeu agora sua utilidade. É tão estranho pensar que ninguém faz ideia de como eu me sinto, da bomba relógio que eu me tornei, que a qualquer momento pode explodir, já pensei em todas as formas que eu posso fazer, nada me parece garantido o suficiente pra eu não ter que conviver com o olhar de desgosto das pessoas caso não dê certo e por algum erro do destino eu continue viva. Me sinto uma péssima profissional por desejar tão intensamente a morte, mas me sinto uma péssima pessoa quando as únicas coisas que ainda me seguram aqui são meus pacientes, principalmente os mais novinhos, que contam comigo, que precisam de mim. Esse é meu sentimento hoje, dia 23_10_2025, em um ano muita coisa muda, espero que quando essa carta chegar pra você, ou seria pra mim? Estejamos melhores, que tenhamos encontrado nosso propósito, porque hoje, nesse exato momento, tudo que de fato me segura aqui é a covardia, a covardia de deixar pra trás uma vida puramente medíocre, marcada por relacionamentos que nunca dão certo, por pacientes que não me respeitam, e por um gato preto, que ainda consegue me fazer sorrir. Por fora as coisas parecem ok, mas por dentro ta tudo fora do lugar, absolutamente tudo, eu nem queria morrer, eu só queria me sentir bem, parece que falta uma coisa o tempo todo, e eu simplesmente não consigo dizer o que é. Antes eu achava legal dizer que eu seria o pôr do sol mais lindo, hoje é raro um dia que eu vejo o pôr do sol, parece que tudo já se pôs dentro de mim, eu só me queria de volta, queria me apaixonar de novo, mas não por pessoas, e sim pela vida.