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Uma carta de 23/10/2025

27 de outubro de 2025 27 de abril de 2026
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981 palavras

Meu querido eu do futuro,

Corrigi ontem o primeiro gabarito do ENARE. Fiz 78 pontos, falei para a minha mãe que fiz 80 e falaremos para meu pai que fiz 88. Eu queria ter feito 88.

Foi bem desesperador. Esse 7 na frente me matou. Acho que se eu tivesse feito 80 mesmo, eu estaria um pouquinho menos pior.

A primeira coisa que eu fiz foi ligar para a Bruna, acredita? A segunda foi para a jasmim. Contei para as duas a minha nota real. Nem foi o Igor que eu quis ligar. De noite contei para ele e tudo, mas eu acho que isso diz alguma coisa...

Mas esse nem é o ponto. Eu sei que tem muita agua para rolar, mas agora começo a depender do acaso. Rezar para que as mudanças no gabarito tanto da FELUMA quanto do ENARE me favoreçam. Preciso muito disso. Sempre penso no IPSEMG e como eu fiz a mesma pontuação que a Aline e com o recurso eu subi lá para cima. Enfim.

A esperança doeu ontem. Eu a enfiei bem no fundo do meu coração. O chat conversou comigo há um tempo. Eu poderia usar a esperança como um faca tanto para enfiar no meu peito, quanto para cortar o mato da minha frente e avançar no caminho. O problema eu acho é que eu estou vendo a esperança só no resultado final.

E a esperança do dia a dia? Em 98% da minha trajetória eu uso a esperança para cortar o mato. No resultado final, ela acaba virando contra mim. Eu sei que usa-la nos 98% tem um peso mil vezes menor na minha cabeça. Ela me machuca muito. Mas e se a gente começasse a pensar que ao inves dela ter enfiado no meu coração, na verdade, eu só cortei o meu dedo com a lamina enquanto cortava o mato? Doeu cortar o dedo. Mas eu cortei ainda no processo de avançar. Vou parar e fazer um curativo, mas vou pegar a faca de novo e recomeçar. Ai entra a resiliencia. A minha resiliencia.

É dificil para mim ver a esperança nessa nova versão. É algo novo. Mas acho que devemos tentar.

A decepção está aqui no meu coração. A tristeza, a angustia. É a segunda vez que choro em 2 semanas. Isso é bastante. Não quero canalizar a dor em odio. Não acho que tenho força para isso. Vou me preocupar com o maná de hoje. Não tenho forças para pensar no maná do futuro.

Vou focar no HRPP e no SUS. A prova do IPSEMG foi uma loucura ano passado. Preciso colocar ela com o mesmo peso das outras duas.

Eu preciso dessa vitoria. Eu preciso para meu ego. Eu preciso para mostrar para mim que eu consigo. Eu preciso abrir aquele champanhe.

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A esperança que fere e a esperança que guia são a mesma - o que muda é como você a segura.

Hoje, talvez o corte te faça sangrar, mas não é um ferimento mortal.

É o tipo de ferida que, quando cicatriza,

engrossa a pele e te faz empunhar a lâmina com mais sabedoria da próxima vez.

Porque só sangra quem ainda tem coração pulsando.

Mariana, talvez o segredo não seja parar de usar a esperança, mas aprender a transformá-la em ferramenta, não em prova. Ela não serve pra te testar - serve pra te conduzir. O corte no peito cicatriza, mas o caminho aberto por ela continua existindo. E cada vez que você pega essa faca de novo, você mostra pro mundo - e pra si – que ainda tem coragem de acreditar.


Quando você diz que a esperança te machuca, o que está por trás é uma forma de relação com ela que virou um teste.

Você acredita com toda a força, e no fundo pensa: “Se eu conseguir, é porque Deus me ouviu, é porque eu sou capaz, é porque valeu a pena.”

E, se o resultado não vem, o pensamento escuro aparece: “Então eu falhei. Então não mereço. Então Deus se esqueceu de mim.”

Percebe? A esperança, assim, vira uma prova de valor.

Ela se torna uma régua cruel que mede tua fé, tua inteligência, tua sorte, tua capacidade — e que te deixa sempre à beira do abismo da dúvida.

Mas a esperança nunca foi um teste.

Deus não te dá ela pra ver se você passa.

Ele te dá pra te conduzir.

Pra te fazer continuar andando quando as forças acabam.

Ela é como uma lanterna em noite escura: não mostra o fim da estrada, mas mostra o próximo passo.

Quando a esperança é vista como teste, ela exige resultado.

Quando é vista como guia, ela apenas pede entrega.


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Esse trecho que vc disse. Eu não consigo ver assim. Esta tão internalizado que eu preciso mostrar o meu valor. Mostrar para os outros, mostrar para mim. Eu queria mostrar para mim.

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Quando você diz "eu queria mostrar pra mim", talvez o que esteja por trás seja: "eu queria finalmente acreditar em mim."


Essa frase te atravessou, né?

Ela é pequena, mas pesa - porque diz tudo o que o teu coração vem tentando há muito tempo.

"Eu queria finalmente acreditar em mim" não é um desejo racional.

É quase um sussurro da alma cansada de ter que provar o tempo todo que merece existir, que é suficiente, que é capaz.

E o mais bonito – e mais doloroso – é que você já vem acreditando em você, mesmo sem perceber.

Porque toda vez que você levanta, mesmo sem fé;

toda vez que você tenta, mesmo com medo;

toda vez que você recomeça, mesmo

achando que não adianta...

você está acreditando.

De um jeito imperfeito, humano, mas profundamente verdadeiro.

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