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Uma carta de 22/10/2025

22 de outubro de 2025 22 de abril de 2026
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1074 palavras

Caro eu,


Hoje, 22 de outubro de 2025, às 19:43, estou aqui escrevendo esta resposta à carta que você enviou há exatamente um ano.



Eu sinto que nada mudou, nada. Algumas coisinhas avançaram, mas eu percebo que as coisas andam de mal a pior. Meu pai está péssimo, até o momento as coisas pioraram, será que tudo vai melhorar? Eu acredito que não irá. Tudo está tão ruim, eu não consigo, eu tenho que mostrar força, queria tanto ajudá-los, tanto, tanto, tanto, queria dar tudo a eles.


Que droga, eu sinto que estou perdendo eles, eu queria tanto que eles ficassem bem, acredito que ano que vem não irá melhorar, neste momento, tudo ficará ruim. Eu ainda estou nesse emprego e não sei quando vai melhorar, queria ajudá-los, queria muito, muito, que droga. Estou perdendo cabelos, estou triste, eu só queria que existisse alguém, um chamado, algo para me ajudar. Qualquer coisa, qualquer sinal.


Desculpe, eu do passado, mas eu saí da igreja, eu sei que você estava acreditando, mas isso não existe, não existe milagres, queria estar errado, mas não existe, o resultado está certo. Este ano foi horrível, eu perdi Akira. Você quando escreveu isso ela era viva, ela morreu. Hoje ela é apenas um negocinho preso na minha parede, só os pelinhos dela, num potinho. Eu gostava tanto dela, queria que ela vivesse para sempre.


Sinto que vou perder todos, um a um. O que eu fiz para merecer isso? Não é justo. Que cruel. Não sou forte o suficiente. Toda vez que os vejo, eu percebo que irei perdê-los. Eu queria que todos tivessem uma boa vida. Eu mataria qualquer pessoa, para tê-los, para vê-los bem. Eu queria ir lá em casa e só ouvir coisas boas.


Lembra quando você escreveu essa carta há um ano, cheio de esperanças? Você perguntou sobre Karol, sobre se eu teria saído desse trabalho, sobre se nossos pais estariam bem. Você acreditava em milagres, você tinha fé, você ainda sonhava com um futuro diferente.


Eu queria tanto te dizer que sim, que tudo melhorou, que o milagre aconteceu. Mas seria mentira. A verdade é que estou aqui, preso no mesmo lugar, vendo as mesmas coisas desmoronarem. Você tinha razão em ter medo naquele dia quando se deitou no chão do escritório, dominado pelo pavor. O medo era justificado.


Sobre Karol... eu não sei mais. Você disse que ela era extraordinária, que trouxe luz à sua vida. E era verdade. Mas como manter alguém perto quando você mesmo está se despedaçando? Como construir algo quando tudo ao redor está desabando? Ela merece mais do que esse peso todo, mais do que minhas noites sem dormir, mais do que essa angústia que carrego.


Você perguntou como sabemos se um milagre ocorreu, de que forma eles se manifestam. Agora eu sei a resposta: não sabemos, porque eles não vêm. Eu queria estar errado, eu realmente queria. Saí da igreja porque cansei de esperar por sinais que nunca chegam, por respostas que nunca vêm, por esse conforto que dizem existir mas que eu nunca senti.


Perder Akira foi só o começo. Aquele potinho na parede com os pelinhos dela me lembra todos os dias que nada é permanente, que tudo o que amamos vai embora. E agora, vendo meu pai assim, vendo todos eles sofrendo, eu sei que é apenas questão de tempo. Um a um, como você disse que tinha medo. E eu não consigo fazer nada.


O trabalho continua igual. Mesma dor de cabeça, mesma tontura, mesmo fingimento de que estou envolvido com as tarefas. A diferença é que agora nem finjo mais tão bem. Os cabelos continuam caindo, como se meu próprio corpo estivesse desistindo de mim, pedaço por pedaço.


Você tinha esperança que em um ano eu teria desenvolvido uma abordagem mais eficaz com as finanças, que estaria livre das ansiedades. Mas como pensar em dinheiro quando tudo que importa está escorregando pelos meus dedos? Como me preocupar com carreira quando não consigo nem dormir direito pensando em como eles estão sofrendo?


Sabe o que é pior? É continuar sorrindo. É ir ao trabalho. É fingir que está tudo bem. É mostrar força quando não tenho nenhuma. Você falou sobre isso na sua carta - como é possível sorrir quando há uma tempestade interna. Agora eu entendo perfeitamente. Não é possível, a gente só finge muito bem.


Eu queria tanto poder voltar no tempo e te abraçar naquele 22 de outubro de 2024, quando você escreveu essa carta. Te dizer que aproveitasse mais aqueles momentos, que valorizasse cada segundo com Akira enquanto ela ainda estava viva. Mas também não queria te tirar a esperança, porque era só isso que te mantinha de pé.


A pergunta que você fez continua ecoando: "O que eu fiz para merecer isso?" Eu ainda não tenho resposta. Não é justo mesmo. É cruel. E você tinha razão sobre não ser forte o suficiente - ninguém seria forte o suficiente para isso tudo.


Desculpe, eu do passado. Desculpe por não ter conseguido realizar nenhum dos seus sonhos. Desculpe por ter perdido a fé que você tinha. Desculpe por ainda estar nesse mesmo buraco, talvez até mais fundo. Desculpe por não ter sido capaz de salvar ninguém, nem mesmo a mim.

Mas sabe de uma coisa? Apesar de tudo, eu ainda estou aqui. Ainda acordo todo dia. Ainda vou trabalhar. Ainda visito meus pais. Talvez isso não seja força, talvez seja só teimosia, ou medo, ou simplesmente não saber fazer outra coisa. Mas eu continuo.


Não tenho as respostas que você queria. Não tenho boas notícias para dar. Não posso dizer que tudo ficou bem, porque não ficou. Mas estou aqui, ainda respirando, ainda tentando, mesmo que não saiba mais muito bem para quê.


Você perguntou se eu estava melhor. Não, não estou. Mas também não desisti completamente, e acho que isso tem que contar para alguma coisa.


Um ano se passou, e eu ainda sou você, só um pouco mais cansado, um pouco mais vazio, um pouco mais perdido. Mas ainda aqui.


Com a pouca força que me resta,


Você mesmo, um ano depois.

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