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Uma carta de 21/10/2025

21 de outubro de 2025 21 de outubro de 2027
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como eu quero envelhecer. E eu acho que esse é um tópico que realmente tem que estar em perspectiva em certos sentidos. Porque é isso, eu acho que o envelhecimento é algo que inevitavelmente vai acontecer, a não ser que eu morra antes. Então meu corpo vai ter um certo declínio, as funções vão não funcionar como antigamente. Talvez eu necessite de um certo suporte. Mas eu acho que isso depende muito de como esse envelhecimento se dá. E são diversas variáveis que não tem como muita gente controlar, que fogem dessa ordem individual. Eu acho que é importante lembrar que estamos numa sociedade, numa determinada estrutura, e às vezes a gente não vai conseguir editar o ritmo do nosso corpo. Muito louco, né? Nosso próprio corpo é apropriado por essa máquina, e a gente não consegue editar o ritmo dele. Mas é um pensamento que eu fico, como na minha esfera micro eu posso... Estou planejando como eu quero envelhecer. Então eu acho que a parte do exercício físico é algo muito potente. Alimentação. Cada vez mais eu fico refletindo sobre os alimentos que eu como ou deixo de comer. É, pra ficar atento à alimentação, sono... ...de poder ir me ajutando, né? E aí eu não precisar acordar por meio, mas eu acho que eu consigo organizar algumas coisas no meu dia a dia para que eu possa, pelo menos, ter uns x horas de sono, entende? Eu acho que, na história micro, eu consigo ter uma possibilidade de... de ir crescendo, né? Um pouco mais maleável, enfim, voltando. E eu acho que um ponto interessante, além dessa coisa um pouco mais concreta, né, que é o corpo, que é a atividade, a alimentação, eu acho que tem um ponto que, pra mim, é fundamental, que é o sentimento, né? Que sentimento eu quero cultivar pro meu envelhecimento? Eu acho que, e isso eu já falei com você, eu acho que uma das coisas mais preciosas que talvez a gente tenha é os nossos sentimentos. E claro, a gente nem sempre, na maioria das vezes, vai conseguir determiná-los, eu sei. Mas eu acho que é sempre válido esse esforço, esforço mesmo, que não é um dado, de tentar ir cultivando, novamente, sendo branco demais, cultivando sentimentos, assim, de poder realmente, não sei como expressar isso também, não sei como fazer isso em certa medida, mas eu acho que é muito importante a gente olhar pra forma como a gente sente a vida, a forma como a vida nos atravessa. E, claro, isso não é um discurso alienante, não é romantizar a vida, a gente vai se enfrentar com inúmeras situações de violência, e eu acho que pelo tom que a gente tá seguindo nos nossos caminhos, a gente vai com o nosso corpo, de inúmeras formas, estar diante de inúmeras violências, eu acho que cuidar dos sentimentos é também tentar compreender como isso nos atravessa, que destino que a gente dá pra isso, né. Eu, pelo menos na minha percepção, tenho alguns caminhos que eu tento dar pra essas violências que me aparecem no cotidiano e que vão continuar aparecendo, porque acho que a forma como eu tô no mundo também é uma forma de estar próximo dessas violências, não por masoquismo, mas por uma vontade de transformar mesmo, sabe. Um ímpeto revolucionário, podemos dizer assim, dessa forma. Criativamente, de uma forma organizada, de movimento, enfim, de uma luta, lidar com essas violências. Eu acho que é uma forma também de tentar ir cultivando esses sentimentos, etc. A poesia e a arte estão mais atentas a isso, de escutar uma música e de, de alguma forma, deixar que aquilo me transborde, me invada, o próprio contato com o outro, sabe? De estar mais atento a certas nuances, enfim. O outro principal é que eu já estou me perdendo nesse áudio, claramente. Pensar nesse envelhecimento, desde esse corpo até a forma como eu estou no mundo. Eu acho que isso passa, sobretudo, pelos sentimentos. Como eu quero que... Pra mim é muito precioso e caro, e algo que eu não quero, que meus sentimentos sejam levados por essa estrutura. Eu acho que o movimento de resistência a essa estrutura é determinar, ou tentar determinar cada vez mais, é, vocês não vão se apropriar dos meus sentimentos, vocês não vão se apropriar da forma como eu sinto a vida. E vocês vão tentar fazer isso, de inúmeras formas, seja me levando para um consumismo e qualificando minhas dores a partir disso. Então, vocês colocam as minhas dores para um consumo, para um produtivismo, então a minha angústia eu tento satisfazê-las através disso, e eu não vou deixar. Eu vou acolhendo as dores, eu vou acolhendo a angústia e dar outras destinações para ela. Através de outros pontos também. Enfim, esse movimento de resistência, de como eu quero sentir a vida. Eu acho que isso está sempre, pelo menos pra mim, está relacionado com o processo de envelhecimento. Não sei, eu quero envelhecer sorrindo, eu quero envelhecer dançando, eu quero envelhecer sem ser turrão, sabe? Sem ser aquele idoso que está no ônibus e está só reclamando. Eu quero ser um idoso que está no ônibus e sei lá, só que não chega em casa porque está cansado, mas isso não... A vida ainda não... A vida não se tornou um martírio, sabe? Um fardo. Viver é foda, mas é legal. Eu acho que eu quero ser um idoso assim. Viver é chato, é estressante, é dolorido, mas é extraordinário.

Envelhecer com vida, compreendendo que ela não será a mesma - e nem por isso será pior.

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