Uma carta de 20/02/2026
Oi, você de 2027.
A um ano atrás eu estava comemorando meu aniversário e, pela primeira vez em muitos anos, eu não acordei esperando que um homem provasse que eu sou importante. Eu já acordei esperando isso... Durante oito anos. Oito aniversários medidos pelo que ele faria ou deixaria de fazer. E quase sempre era pouco. Ou nada. E eu fingia que não era sobre o gesto, mas era. Era sobre ser escolhida.
Teve também o ano em que eu estava com alguém que eu nem amava e às nove da manhã eu já estava discutindo. Meu aniversário virou palco para um relacionamento que só girava em torno dele. À noite teve pizza, mas sem encanto. E eu lembro do bolo que eu comprei naquele ano — comi com a minha filha, guardando um rancor silencioso de quem queria ter sido celebrada e não foi.
Hoje foi diferente. Minha mãe veio. Meu pai veio. Teve bolo. Teve Coca-Cola. Coisa simples, mas que não acontecia há anos. As pessoas postaram fotos. Mandaram mensagens. E, mesmo assim, eu não senti aquela euforia que as pessoas dizem que a gente tem que sentir. Mas eu senti paz. E talvez isso seja o ponto.
Hoje eu entendi que aniversário não é sobre fogos de artifício emocionais. Não é sobre alguém transformar o dia no espetáculo da prova de amor. Não é sobre esperar que o outro legitime o fato de eu existir. É sobre estar inteira.
Se você estiver lendo isso em 2027, eu espero que você esteja ainda mais livre da expectativa de ser validada. Espero que você esteja com alguém que faça questão — não porque você implora, mas porque ele naturalmente faz. E, se não estiver com ninguém, que isso não seja ausência, mas escolha consciente.
Eu espero que você continue entendendo que o marco não é a data. É o processo. É a mulher que você se tornou entre um fevereiro e outro.
Se em 2027 você acordar feliz, ótimo.
Se acordar neutra, tudo bem também.
Mas não volte a medir seu valor pelo quanto alguém faz ou deixa de fazer nesse dia.
O que realmente importa é que você não precise mais mendigar cuidado.
Hoje eu não senti euforia.
Mas eu senti liberdade.
E isso, sinceramente, já é grande coisa.
Com carinho,
Você, um ano antes.