Uma carta de 17/11/2025
Querida eu/mãe do futuro,
O dia de hoje, em que escrevo essa carta, está sendo muito difícil para seu filho Pedro. Você se lembra de todo aquele processo sobre o estágio na Prime e a questão da impossibilidade na UFOP? Apenas para te relembrar: o estágio teria que ser de 12 meses e ele precisaria adiar a formatura.
Ele tentou de tudo (você também arrasou tentando ajudar, né? puta mãezonha). Foram vários processos envolvendo pedidos à doce orientadora, adiamento de monografia, conversas infinitas no whatsapp com o póbi do Vitor da coordenação e orientações pedidas ao setor de estágio da UFOP. Mas o último impedimento é que a UFOP, depois de anos pós-pandemia, enfim resolveu regularizar o calendário de modo que, ao invés de Pedro ter a possibilidade de se formar em Novembro (podendo fazer o estágio de 1 ano), ele irá se formar em julho. Acredite se quiser, nossa raiva estava tamanha que até analisei criteriosamente se poderíamos falsificar os documentos para mudar a data, mas o documento foi assinado digitalmente, sem nenhuma possibilidade de falsificação.
Neste dia, mais especificamente uma noite um pouco mais fria no nosso apto, nos sentamos no sofá com computadores e celulares redigimos uma mensagem que ele enviará amanhã para a moça do Recursos Humanos, em uma tentativa de ver se seria possível que ele faça o estágio de 9 meses.
Porém, neste momento, embora eu não tenha dito isso explicitamente para Pedro, acho que realmente não vai ter jeito de ele prosseguir no estágio, mesmo já estando lá na Prime há uma semana e pouco.
Foi um dia difícil e, depois de escrevermos a mensagem para a moça do RH, falei com Pedro para ele ir jogar o joguinho dele de celular e ir pro quarto pra eu soltar pum (moça, vc está com um piriri, gastrite e etc. já há uma semana... foi quando vc fez o filet Mignon com um molho maravilhoso de manteiga para Talita e Pedro quando ela esteve aqui, lembra?).
Enfim, ele foi para o quarto e pensei "Ai, jesus, vou resolver umas coisas de mensagem, olhar as aulas de amanhã, etc.". Mas Pedro voltou pro sofá (mesmo com meus puns) e, como já conheço meu filho, sei que ele estava sofrendo internamente, angustiado e querendo um carinho ou uma companhia... Então larguei o que estava fazendo e fomos ter uma longa conversa sobre tudo. "Fomos" é uma palavra forte, né? Porque, quando se trata de ter esse tipo de conversa com Pedro, você diz a ele que ele precisa falar, mas você mesma mal dá espaço para que ele fale porque você é prolixa demais. (Veja bem... até aqui você sequer chegou ao ponto da ideia central que esta carta deveria tratar... mais prolixa que isso não existe).
Bem, voltemos aos fatos.
Tivemos essa longa conversa em que atuei como terapeuta, como amiga, como mãe (porran, nesses casos vc até que continua boa, mesmo se sentindo péssima em todo o resto dos contextos da sua vida).
Vou colocar em tópicos essa conversa porque já me cansei de mim mesma com tanta escrita desnecessária.
- Fazer uma escolha (terminar o TCC e formar versus abandonar esse TCC para fazer outro depois e ir estagiar) é inevitável na vida e cada escolha traz acertos e erros para o futuro. Escolher é preciso, mesmo quando isso gera sentimentos ruins.
- Disse a ele que, no fundo, ele já fez a escolha.
- O fato de fazer uma escolha, principalmente quando é difícil, não impede que ele possa sofrer, fique puto, sinta-se injustiçado, tenha vontade de chorar etc. Escolher não é se isentar de sofrer, mas sim buscar lidar com a forma como a vida, infelizmente, muitas vezes é.
- Muitas vezes não entendemos determinadas coisas que ocorrem nas nossas vidas e que, por isso, devemos entregar em Deus as nossas preocupações e o nosso futuro, pois só ele sabe o porquê do que ocorre em cada linha de nossas vidas e cada evento da nossa vida pode ter um propósito desconhecido por nós.
- O fato de que, sobretudo por ser homem, ele precisa aprender a chorar, manifestar seus sentimentos e ser mais vulnerável para entender mais sobre si e retirar uma carga de emoções suprimidas e, no caso dele, muitas vezes escondidas por trás da expressão “Tá de boa”. Falei que “Chorar é coisa de homem muito forte, pois segurar choro é algo fácil porque foi naturalizado”.
- Apresentei novamente o “quadro de palavras de emoções” para ele ampliar o leque de compreensão dos sentimentos. Rs
- Pedi muito a ele que, se em algum momento da vida ele sentir que está em sofrimento psíquico mais intenso, ele deve procurar uma terapia... Até lá, disse a ele para tentar entender melhor seus sentimentos, expressar mais isso, inclusive para a namorada e, caso não consiga, escrever sobre seria uma boa tentativa.
Por isso aqui estou. Dei a ele a tarefa de escrever essa carta para ser lida daqui a um ano.
E então? Pedro conseguiu ficar no estágio? (No fundo, mesmo dizendo que eu não creio mais que dará certo, eu fico pensando que pode ainda dar certo. Essa minha mania de ainda pensar positivo – ainda bem que de vez em quando ela ainda me aparece.)
Se ele não conseguiu, a escolha o deixou muito angustiado e triste por muito tempo? Isso impactou muito negativamente os sentimentos dele?
Se ele não pôde ficar no estágio, ele conseguiu se formar em fevereiro de 2026? Caso sim, ele já está trabalhando ou buscando emprego? Caso ele não esteja trabalhando, não esqueça de lembrá-lo que ele ainda vai conquistar muito do que deseja e que, neste caso, de fato é uma questão de tempo para que ele tenha um trabalho e comece a prosperar na carreira.
Você acha que Pedro fez progressos em relação à manifestação e melhor entendimento dos seus próprios sentimentos?
Quanto a você, mãe, há poucos dias vc não acordou para ir a escola e pensou em desistir de tudo de trabalho, pedir demissão e deixar tudo no caos. Você começou novo tratamento a partir da consulta com Dr. Pedro. Seu nível de depressão hoje é 2 de 10. Você ainda não acredita que melhorará a ponto de não ter que executar seu plano para daqui a 2 anos, mas você se encontra melhor nestes dias – apesar das tonturas, falta de cabelo e outros males decorrentes do fato de ser uma “paciente psiquiatra”, como vc brinca com Pedro.
Espero que ainda esteja viva. Hoje você notou o quanto Pedro ainda precisa de você... e você, ao contrário disso, estava pensando que ele estaria mais pronto para um afastamento que possa vir a acontecer entre vocês dois. Neste momento, você está pensando em preparar Pedro para algumas questões importantes do futuro dele (cozinhar mais, fazer mais atividades domésticas, construir uma boa base de saúde emocional) e pensando também em aproveitar mais momentos com ele construindo essa vivência que será importante para a construção dele como sujeito do/no mundo e ser psíquico.
É isso.
Que canseira de carta, hein, minha fia?
Até daqui a 1 ano!