Uma carta de 17/10/2025
Oii Alyssa do futuro. Como estão as coisas?
Vamos à recapitulação anual.
Hoje é dia 17 de outubro. Domingo fizemos 23 anos e a comemoração foi bem diferente da do ano passado. Esse ano fiz um churrasco na casa do meu pai no sábado e passei o domingo com a minha mãe. E olha só que evolução! Ano passado eu nem cogitaria passar esse dia com meu pai.
As coisas ainda não são tão simples entre a gente, e acredito que nunca vão ser. Mas estou tentando seguir a minha vida, não me abalar tanto por coisas que ele faz e que me magoam. Nem sempre é fácil, mas olha só, estamos sem brigar há meses, então acho que dá pra comemorar essa evolução.
Esse ano também foi o ano que resolvi voltar a falar com Gi. Depois de 6 anos sem nos vermos, decidi que já tínhamos passado tempo demais nessa palhaçada e era besteira perder uma amizade que temos desde os 9 anos de idade por causa de idiotice que adolescente idiota faz. Tivemos uma conversa sincera (mas não longa) sobre o que aconteceu e no final saímos rindo de como éramos bobas e com a promessa de que homem nenhum jamais se meteria entre nós. Depois disso foi como se nunca tivéssemos parado de nos falar. Nos encaixamos nas novas vidas uma da outra de maneira tão natural que chega a ser engraçado. Não me preocupo se continuaremos amigas até o momento que você ler essa carta ano que vem porque com a Gi tenho um sentimento de certeza que nunca tive com ninguém. Simplesmente sei que ela vai estar lá.
Este ano meu relacionamento com o Victor está mais forte do que nunca. É engraçado pensar que todo ano sinto isso, mas é a mais pura verdade. Tem sido um ano tranquilo, não brigamos tanto e quando acontece nos resolvemos rápido. Já percebemos que nossa maior causa de briga esse ano é porque um dos dois (ou os dois, o que é assustador) está com fome ou com sono e apenas desconta sem querer no outro, o que eu acho particularmente hilário porque me faz sentir como se eu fosse uma criança que perde a hora da soneca pós almoço. Como já sabemos o que vem causando nossos estresses, apenas comemos, descansamos e conversamos. Tudo se resolve em aproximadamente meia hora.
Notoriamente continuo na terapia. Não estou indo com a frequência que deveria, mas também não largo de vez.
Agora irei responder a perguntas que você me deixou no ano passado.
1- Sim, eu voltei pro estágio mas não foi o da Raquel (infelizmente). A Raquel ficou grávida esse ano e está de licença maternidade, então não pude entrar pro estágio dela novamente. Fiquei chateada de início, mas sinceramente o que eu mais quero é apenas acabar logo esse curso.
Fiquei com o estágio da Sara e da Conceição ao invés disso, que também é em escola. Estou odiando? Sim. Mas está acabando. E crianças sempre são fofas, então compensa.
2- Sobre a reaproximação com o Thiago, consegui e não consegui ao mesmo tempo. Sinto que estamos mais próximos, mas não do jeito que eu pensei que estaríamos. Mas está tudo bem, estou feliz com como estamos.
Esse ano ele e a Mayara se divorciaram e confesso que perdi uma boa parte do respeito e admiração que tinha dele. Claro que ele a traiu. Esse parece ser o padrão de homens da minha família. Espero que meus primos e meus irmãos sejam diferentes. Ficaria extremamente chateada se esse ciclo se repetisse.
3- Infelizmente, ainda não voltei pro terreiro. Esse foi um ano maluco (ainda está sendo né, mas você entendeu). Sinto que tive muita evolução na terapia, estou pensando e lidando de uma maneira diferente com as situações. A ansiedade ainda é presente, mas não na mesma frequência que era antes. A depressão faz visitas, mas são rápidas. Estou aprendendo a colocá-la pra fora antes que se instale e faça morada novamente. Às vezes consigo até mesmo sair correndo e trancar a porta antes dela entrar.
Sinto a depressão como se ela fosse uma antiga colega de quarto que eu tive que expulsar de casa e trocar as fechaduras porque estava roubando minhas coisas. Ela ainda sabe o caminho de casa, mas a chave que tem já não abre mais essa porta ( o que não a impede de tentar de tempos em tempos).
4- O relacionamento com meu pai está indo infinitamente melhor que pensei que estaria. Estou lidando com toda a situação de uma maneira prática e fria. Eu amo ele, gosto de passar algumas horas com ele, mas não confio e nem acredito nele. Se ele diz que fará algo, não espero que o faça. Se me diz que está fazendo terapia, sinto muito mas terá que fazer mais do que falar se quiser me convencer. Se diz que se mantém presente na vida dos meus irmãos mesmo eu sabendo que não, apenas respondo "que bom, eles sentem a sua falta" ao invés de discutir. Se fala pra eu fazer algo sem noção como chamar meus primos por parte de mãe pro meu aniversário na casa dele, apenas digo que chamei e eles não vão poder ir. Simples, prática e distante.
Querida Alyssa do futuro, espero que as coisas estejam bem por aí. Gostaria de saber tanta coisa, mas acho que vou ter que me contentar em viver todas elas. Esse ano deveria vim com uma estrelinha no calendário da vida. Sinto que estou crescendo, quase me sinto adulta de fato. A vida está mais estável, me sinto madura e capaz de resolver os problemas do dia a dia. Também me sinto mais bonita, mais inteligente (não apenas emocionalmente, mas academicamente também). Me sinto mais fiel a mim mesma. Sinto que estou me tornando que eu quero ser.
Apesar de coisas ruins terem acontecido, elas são apenas isso. Coisas ruins que eu vou ter que lidar. Não há muito o que fazer. Há de se viver o ruim, e evitá-lo é apenas se prolongar nele. No final do dia, eu sobrevivo. Sempre sobrevivi, então tudo bem.
Feliz 24 anos (nossa idade tá ficando séria!)