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Uma carta de 09/12/2025

9 de dezembro de 2025 9 de junho de 2026
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645 palavras

Oi, Ana.

Estou escrevendo para você porque sinto que este momento da sua vida merece ser registrado com cuidado, com honestidade e com carinho. Hoje é um daqueles dias em que a vida está cheia de pontas soltas, de esperança e medo convivendo no mesmo espaço — e eu sei que você vai querer lembrar exatamente de como era estar aqui.

Ontem à noite você e sua mãe montaram a árvore de Natal. Vocês riram muito, tiraram fotos, brincaram, e por algumas horas o mundo pareceu simples, leve, inteiro. Você teve a sensação nítida de que estava vivendo uma das suas memórias favoritas. Guarde isso. Talvez, quando reler, você perceba que foi uma das últimas vezes em que a vida foi tão doce assim — ou talvez tenha se tornado apenas a primeira de muitas.

Hoje cedo você contou para sua mãe sobre o Eduardo. Ele voltou. Você está animada, esperançosa, mas com o coração acelerado como sempre. A ansiedade está alta — aquele medo de perder algo que mal começou, aquele impulso de interpretar silêncio como ameaça. Vocês não conversam muito por mensagem, e você tenta, com esforço consciente, não transformar essa falta em fantasmas. Você escolheu acreditar no que viu, no que ouviu, no que sentiu. Escolheu confiar. E está aprendendo a lidar com isso com mais maturidade do que imagina.

No lado profissional, você sente que foi péssima no concurso do TJSP — talvez esteja sendo dura demais consigo mesma (como sempre). Em compensação, está confiante com Itapecerica. E essa possível relação com o Eduardo te despertou um senso de urgência: você quer sua vida encaminhada, quer estabilidade, quer poder construir algo. Não imediatamente, mas logo. Logo. Essa palavra tem ficado martelando na sua cabeça.

Você não sabe como será 2026, mas está estranhamente esperançosa. Bia te recomendou para uma vaga. Seu chefe te recomendou para um escritório. O pessoal do gabinete quer te levar com eles. E você, pela primeira vez em muito tempo, se sente desejada profissionalmente, como se múltiplas portas estivessem finalmente se abrindo — e isso mexe com você.

Quanto à sua mãe… vocês foram ao médico recentemente, e isso te deixou tensa. Você percebeu pequenas fragilidades, sinais de idade, e sente medo. Medo real. Medo de perdê-la. Medo de não ter dinheiro para cuidar dela do jeito que ela merece. Medo de abrir esta carta no futuro e descobrir que já é tarde demais. Você torce — ora — para que quando voltar a essas palavras sua mãe esteja viva, saudável, e que vocês tenham vivido muitas outras árvores de Natal juntas.

Você também torce para que, quando abrir esta carta…

– … você esteja concursada, em paz, com estabilidade financeira.

– … sua vida amorosa seja saudável, recíproca, leve — com o Eduardo ou com alguém que te ame na mesma medida.

– … você tenha se saído bem nos três ministérios.

– … você tenha aprendido a lidar com a sociedade do ministério das mulheres, sem carregar o peso do mundo.

– … você tenha mais amigos, e também um hobby que te faça sorrir sem motivo.

– … você tenha superado a depressão sazonal, ou ao menos aprendido a reconhecer quando ela vem e como se proteger.

– … você tenha construído uma versão mais segura de si mesma, com mais fé e menos pressa.

E, acima de tudo, você espera que a Ana do futuro seja alguém de quem você se orgulhe — não só pelo que conquistou, mas pela maneira como sobreviveu a tudo o que viveu até aqui.

Se você está abrindo esta carta agora, respira fundo. Lembra da menina que escreveu tudo isso: ela estava tentando, mesmo com medo. Ela merece seu carinho.

Com amor,

Você.

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