Uma carta de 09/02/2026
O que seria a vida, senão uma eterna Divina Comédia?
Às vezes eu penso que a gente acorda achando que tá num drama, mas no fundo tá numa tragicomédia bem escrita demais pra ser coincidência. Um dia você tá chorando por alguém que foi embora, no outro tá rindo sozinha no banheiro porque esqueceu o dinheiro no caixa eletrônico, eu saquei e esqueci de pegar, bem minha cara. Num capítulo, você acha que perdeu tudo; no seguinte, descobre que ganhou um cabelo ondulado, piercings cicatrizados e coragem suficiente pra pular de um avião🪂.
É tudo tão absurdo que chega a ser poético.
A vida me testou como quem diz: aguenta mais um pouco. E eu aguentei. Aguentei pus, inflamação, medo, término, solidão, comentários atravessados, gente pequena rindo de sonhos grandes. Aguentei até aprender que algumas dores não são castigo, são passagem, verdadeiros rituais de passagem da vida, confirmando se estamos prontos pro próximo nível. Que nem no inferno de Dante (Divina Comédia, um livro bem famoso, recomendo a leitura): você atravessa não porque merece, mas porque precisa.
Nesse meio tempo, eu fui vivendo coisas que não parecem grandes quando acontecem, mas que mudam tudo. Fiquei um mês sem comer açúcar (agora já passam de 6 meses 🫨), eu, que sempre fui uma formiga assumida. Comecei pesando quase 47kg, agora tô com 44,3. Me sinto mais leve por dentro também. Não é só sobre peso, é sobre escolha. Sobre conseguir ficar. Sobre sustentar uma decisão mesmo quando ninguém tá olhando.
Fiz exames, fiz ultrassom, descobri que meus “filhos” por enquanto são só cistos no ovário mesmo, nada de bebês, calma vida, daqui uns anos quem sabe. Passei mal tirando sangue, acordei ansiosa, mas na hora estiquei o braço, coloquei um rock antigo no fone e fiquei quieta. Não chorei. Não fugi. Quando acabou, agradeci e fui embora. Pequenas vitórias que ninguém aplaude, mas que constroem uma mulher.
Hoje eu tenho 19 tatuagens no corpo. Três nas costelas, porque aparentemente eu ainda preciso testar meus próprios limites. Engraçado como uma mulher cheia de tatuagem pode ter medo de agulha, mas são dores diferentes. Tem dor que a gente escolhe. E escolher também é crescer.
Tem dias que eu me sinto ridícula, exagerada, intensa demais pra esse mundo tão econômico de sentimentos. Em outros, me sinto gigante. Mulher. Inteira. Olhando pra trás e pensando “meu Deus, eu sobrevivi a isso tudo?”. Talvez seja isso crescer: não virar alguém diferente, mas finalmente caber em si.
Eu tentei ser lisa quando era ondulada. Tentei ser menor pra pertencer. Tentei amar quem não conseguiu ficar. Tentei beijar bocas aleatórias pra esquecer uma só. E falhei em quase tudo, ainda bem. Porque no meio desses fracassos eu fui me encontrando, tropeçando em mim mesma, caindo de braços abertos em estranhos, rindo do próprio desastre, levantando com um pouco mais de consciência a cada cena.
Conheci gente nova, fiz amigos, fui a festivais, levei meu pai ao primeiro show dele. Pensei em caminhos que não são pra mim e aprendi a respeitar isso. Nem toda curiosidade precisa virar destino. Nem toda porta aberta precisa ser atravessada.
E talvez a parte mais improvável de todas: eu marquei um salto de paraquedas e um voo de balão pro meu aniversário de 25 anos. Tá pago. No dia exato. Se alguém disser que eu sou louca, eu concordo. Se eu tenho coragem de pular de um avião, eu tenho coragem de muita coisa, inclusive de continuar vivendo sem garantias.
Se a vida é uma comédia divina, eu tô naquele ato em que o caos ainda existe, mas já não assusta tanto. Onde o riso começa a dividir espaço com a lucidez. Onde eu percebo que nem tudo precisa fazer sentido agora, algumas coisas só precisam continuar.
Eu sigo.
Com chuva, com sol, com saudade, com vontade.
Com medo, e com coragem suficiente pra ir mesmo assim.
E se um dia alguém reler essa história e pensar “meu Deus, que mulher louca”, que pense.
Loucura, às vezes, é só lucidez demais
num mundo que sente de menos.
Feliz 25 anos Biela ♥️🎂🎂🎉🎉🎈