Uma carta de 08/11/2025
oi, Ana. como estamos?
já escrevemos algumas dessas cartas nos últimos anos, não foi? não sei ao certo o que elas diziam, mas o que me lembro é que tínhamos sonhos bem megalomaníacos na época. a gente achava que a felicidade se encontraria em viajar o mundo, ir a todos os cartões postais que vimos na tevê, na internet, ao longo da vida. a gente acreditava que só seria feliz quando entrasse em um avião e cruzasse o oceano, e que sucesso e realização seriam medidos através das milhas que percorrêssemos, de quantos carimbos no passaporte tivéssemos. no fundo talvez a gente soubesse que tudo isso era só uma ideia biruta que colocamos na cabeça, que essa suposta vontade de ver o mundo a todo custo era apenas uma necessidade de sair desse lugar de dor, de não pertencimento, de luto.
enquanto te escrevo, temos 27 anos (e 1 dia!). quando receber essa carta, teremos 28 (e 1 dia!).
nosso último ano foi bem diferente do que a gente imaginou, do que a gente planejou, e apesar de todos os tropeços e barrancos pelos quais saímos rolando, ele até que foi bom. e sabe por que ele foi bom? porque entendemos uma coisa (uma coisa bem crucial): a nossa felicidade não vai estar nos esperando do outro lado do oceano, mas dentro da gente. a nossa felicidade, na verdade, nos espera na vida que queremos tanto construir. uma vida que é leve, que é calma. uma vida que não nos extenua. é só isso que a gente quer. e que alívio perceber isso. espero que a gente possa, sim, viajar por aí algum dia. mas essa não é a nossa motivação, não mais.
queria te dizer, também, que torço muito por nós. que um dos meus maiores desejos, se não o maior deles, é que a gente consiga se tratar melhor. que a gente aprenda a se cuidar. por se cuidar, entenda o sentido real aqui: que a gente consiga ser nossa proterora, uma mãe. que cuidemos de nós como uma mãe cuida de um filho que tanto ama, que a gente comece a zelar pela nossa segurança, pela nossa saúde, pelo nosso coração. a gente passou os últimos anos lutanto pra não deixar o oceano do luto nos engolir, a gente nadou muito (mesmo sem saber como fazer isso direito) pra não se afogar - e foi difícil, foi muito difícil. mas a gente não pode morrer na praia, porque a gente chegou na praia. a gente ainda não saiu da água, ela ainda bate no nosso calcanhar e se a gente não cuidar, uma onda daquelas fortes e que surge do nada pode nos pegar de surpresa. então, cuide! fique atenta! sempre atenta. a gente tá quase lá. quase chegando areia. é lá que a gente precisa estar.
vou te contar um outro desejo meu: que a gente encontre o caminho até a criança que fomos, e que seguremos a mão daquela Ana. que a gente olhe pra ela com carinho também, que a gente cuide dos machucados que ela tem, porque sabemos que são muitos. espero que entre os 27 e os 28 tenhamos assistido desenho junto dela, que a gente tenha servido refeições gostosas e que cuidam dela por dentro, que a gente tenha ido à praia novamente, visto coisas bonitas. que a gente sente com ela e leia livros, muitos livros, e estude coisas novas. que a gente seja pra ela a companhia que tanto precisamos.
por fim, vou te contar um segredo: acho que estou começando a me amar. a te amar. é um sentimento bem engraçado, diferente de tudo que já passou por aqui, mas vai ser uma jornada bonita de ser contada. quando ler essa carta daqui a um ano, espero que a gente já se ame bastante.
conte pra nossa eu dos 29 como foi o caminho, sim?
um beijo,
um abraço,
um afago no cabelo.
xx Ana.