Uma carta de 03/02/2026
Ao Deus do Tempo
Enquanto olho a chuva pela janela do ônibus com um aperto no peito e os olhos marejados, penso no quanto, de todos os outros deuses, você é o mais cruel. Os dias mais felizes da minha vida passaram como um foguete diante dos meus olhos, os mais tristes (e principalmente os mais tediosos), se arrastam lentamente e pareceram nunca ter fim.
Quase dois anos atrás eu fiz um acordo com todos os outros deuses pra não pensar mais nele, e se fosse pensar, que fosse só nos sábados, e voce achou que seria uma ótima piada fazer de todos os meus dias, sábados.
Muitos dias se passaram e eu ainda nao consegui alcançar o domingo da minha vida... Eu vejo a chuva e sonho com um domingo de sol, que eu possa acordar mais tarde e só me preocupar com o fato de que o dia seguinte será segunda. Deus, até as segundas eu tenho desejado... Eu não aguento mais os sábados, principalmente agora que a única coisa que eu tenho dele são as lembranças. Não quero mais abrir todas as redes sociais possíveis procurando ele, não quero mais esperar um sinal que não vai chegar. Não quero viver a tortura de imaginar todos os jeitos possíveis de mandar um sinal que ele nunca vai ver, e mesmo que veja, não vai se importar.
Viver só de sábados contraria as leis que você mesmo criou, Chronos. Vim cobrar a restauração natural da linha do tempo.
Enquanto isso, vivo siriuslada, numa saudade infinita e sentindo um amor que nunca terá fim.
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Hoje faz uma semana que eu não tenho notícias dele, nem um mísero sinal. Mando essa carta para uma semana no futuro, na esperança de que essa angústia seja menor, afinal, só o Deus do tempo pode me ajudar nisso.