Uma carta de 02/05/2026
Querida eu,
Abri um caderno antigo hoje… e foi estranho. Parecia que eu estava olhando para alguém que eu conheço muito, mas que ficou meio perdida no caminho. Me deu uma sensação boa e dolorida ao mesmo tempo. Eu lembrei de como eu era. Ou talvez… de quem eu sempre fui, antes de tentar caber em lugares que claramente não eram para mim. Antigamente eu era eterna. E acho que, no fundo, ainda sou, só estava meio escondida por camadas de um silêncio que não era meu.
Tenho sentido uma saudade esquisita. Não é de alguém, nem de algum momento específico. É saudade de mim. De me ver nas fotos, nos vídeos, nas coisas simples, e perceber que tinha algo ali que era tão leve, tão verdadeiro… E é engraçado, ou meio triste, perceber que quanto mais eu tentava ser “normal”, mais eu me afastava disso. Mais eu me perdia. E mais estranha eu ficava, não do jeito bonito, mas do jeito desconectado, entende? Como se eu estivesse tateando no escuro à procura de uma porta que eu mesma tinha trancado.
Só que agora… alguma coisa está voltando. Essa “estranheza”, essa “loucura”, ou seja lá o que for esse meu modo-de-ser — está escapando de novo. Devagarzinho. Como luz entrando pelas frestas de uma casa abandonada que resolveu ser habitada. E eu estou começando a gostar disso. Estou começando a me achar mais bonita assim. Mais inteira. Mais perigosamente eu.
E eu também preciso registrar: eu pedi ajuda. Eu estou em terapia. E ouvir que eu posso simplesmente ser eu mesma, mesmo que isso seja um susto para os outros às vezes, foi libertador. Tipo… foda-se mesmo. *No problem.* Mas nem tudo são flores. Tem dias cinza. Dias iguais, onde o tempo parece uma massa parada. Dias em que eu não queria nem levantar da cama porque a vida pesa. E tudo bem admitir isso também. Se você estiver lendo isso num dia assim, por favor… pega leve. Esses dias passam. Eles sempre passam, deixando um rastro de poeira que a gente limpa depois.
> “Eu sou a parte do mundo que transbordou por não caber. O mundo é pequeno, eu é que sou muita.”
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Se você ainda estiver vivendo isso, sendo essa existência que não pede licença para ser, então deu certo. Mesmo que tenha sido difícil, confuso, solitário às vezes… deu certo. Que você não tenha caído na armadilha de podar suas arestas para caber em teorias mortas ou em olhares que não alcançam sua profundidade. Espero que a sua "estranheza" continue sendo seu refúgio. Que você continue olhando para o humano como um mistério a ser vivido, e não como um problema a ser resolvido.
Não esqueça das conversas que te fizeram sentir viva. Daquela liberdade que dá vertigem. Se o peso do "ter que ser" estiver muito grande, lembra que a existência é um projeto em aberto. Você é imensa. E ser imensa dói, mas é a única forma de estar realmente viva. Não aceite menos do que o espaço inteiro que você precisa para transbordar.
Só não volta a se abandonar, tá? Porque o abandono de si mesma é a única solidão que a gente não cura com companhia.
Com o carinho de quem está aprendendo a ser,
Eu.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.