Uma carta de 02/02/2026
Oi, Júlio.
Se você estiver lendo esta carta daqui a 3 anos, espero que ainda exista em você algum espaço de pausa. Que você tenha parado por alguns minutos, respirado fundo e permitido que estas palavras te encontrem no meio da vida que você construiu. Espero que esteja bem — não necessariamente feliz o tempo todo, mas inteiro o suficiente para continuar.
Espero que em 2029 você tenha alcançado ao menos parte daquilo que hoje parece distante. Não apenas conquistas externas, mas vitórias silenciosas: aprender a se escutar, a demonstrar amor sem tanto receio, a estar presente para quem caminha ao seu lado. Que você tenha aprendido a amar melhor — os outros e a si mesmo.
Desejo que alguns vícios tenham ficado no passado. Não só os mais óbvios, mas também aqueles que quase ninguém vê: a fuga constante, o medo de não ser suficiente, a sensação de estar sempre atrasado em relação à própria vida. Que no lugar deles tenham surgido hábitos mais gentis — cuidar do corpo, respeitar o tempo, aceitar que nem tudo precisa ser resolvido agora.
É estranho pensar nisso, não é? Daqui a 3 anos, eu serei o mesmo ser — a mesma consciência atravessando o tempo — mas, ao mesmo tempo, posso ser alguém totalmente diferente. Irreconhecível até. Assim como fui irreconhecível para mim mesmo há 3 anos, há 6 anos, e em tantas outras versões que já deixei para trás. Talvez o “eu” não seja algo fixo, mas um processo contínuo de despedidas.
Às vezes sinto que esta carta não é para mim, mas para um desconhecido que herdou meu nome, minhas memórias e minhas cicatrizes. Um estranho que carrega tudo o que eu fui, mas que escolheu caminhos que hoje ainda não consigo enxergar. Ainda assim, espero que você trate o Júlio de 2026 com certa ternura. Ele está tentando. Do jeito dele, com as ferramentas que tem agora.
Neste momento em que escrevo, existem muitas questões abertas. Perguntas sem resposta, angústias que não sei nomear direito, expectativas que pesam mais do que deveriam. Espero que você tenha resolvido algumas delas — ou aprendido que nem tudo precisa de solução. Que você tenha feito as pazes com o fato de que viver é, muitas vezes, seguir mesmo sem entender completamente.
Espero que, ao ler esta carta, você sinta orgulho. Não um orgulho grandioso, mas um orgulho calmo. Orgulho de ter continuado mesmo quando foi difícil. Orgulho de quem você foi, de quem você se tornou e de quem ainda pode vir a ser.
Ah, Júlio… e sua série favorita ainda é Star Trek?
Se sim, que bom. O seu eu do passado gostaria muito de saber o que você achou de Starfleet Academy. Conta pra ele — nem que seja em pensamento. E me diz: a trilogia de Star Trek ainda é a sua preferida? Ou o tempo também mudou isso em você, como mudou tantas outras coisas?
Talvez essas perguntas pareçam pequenas diante de tudo, mas elas dizem muito sobre continuidade, sobre aquilo que permanece mesmo quando quase tudo muda.
Por fim, deixo uma última mensagem para o meu eu daqui a 3 anos: que você tenha maturidade suficiente para encarar a vida sem endurecer demais. Que você continue curioso, sensível e honesto consigo mesmo. E que, mesmo com o peso dos dias, você não esqueça quem você foi quando ainda estava aprendendo a existir.