Uma carta de 02/01/2026
Eu esperava escrever uma carta nesse dia, tinha plena convicção que me encontraria exatamente assim hoje, sentada em frente ao meu computador escrevendo sobre meus sentimentos. Mas algumas coisas não estão como eu planejei, eu pensei que seria uma carta de amor e isso definitivamente não será uma. Em 02 de janeiro de 2024, estava escrevendo uma carta para pedir uma pessoa em namoro. Em 02 de janeiro de 2025, estava escrevendo a carta de um ano de namoro. A lógica agora seria estar escrevendo a carta de dois anos de namoro. Mas acho que essa é a graça da vida, lógica não se aplica sempre e a vida segue leis e teoremas que eu ainda não aprendi a demonstrar. Não quero que essa seja uma carta sobre término, quero que essa seja uma carta para mim. Sobre mim. Pela primeira vez em anos, me colocar como destinatário do meu amor. Ser sempre só remetente cansa. Apesar de todos os problemas com autoestima, eu sempre me considerei uma pessoa esperta, planejava cada pedaço da minha vida, imaginava todas as possíveis alterações e me preparava para cada uma delas. O problema é que eu passei 2025 inteiro me preocupando com tudo que poderia dar errado e o que realmente deu não era nenhuma das minhas preocupações. Nesses últimos anos, eu perdi muita coisa. Foram dois namoros terminados, muitas amizades quebrando e voltando, pessoas que eu amo morreram, minha família se destruindo e se remontando mil vezes. Em meio a tantas perdas, nas últimas semanas percebi que eu também me perdi. Eu aprendi que existe vida mesmo depois de perder quem eu amo, mas tenho percebido que é muito difícil ter vida depois de se perder. Passei tanto tempo pensando em quem poderia ir embora da minha vida que até eu me abandonei. Me preocupei tanto em me moldar para ser uma boa namorada, amiga e família que esqueci como ser uma boa pessoa para mim. Hoje eu vejo que não sou muito mais do que um mero personagem obcecado em validação acadêmica. Estava tão ocupada tentando orgulhar todo mundo que no fim a única pessoa que eu decepcionei foi eu mesma. Pergunta sobre mim para qualquer um e o primeiro adjetivo respondido será que sou inteligente. Pergunta o que eu faço e a primeira coisa respondida será faculdade. Tempo livre? Projetos de extensão. Livro atual? Algum necessário para alguma matéria complicada. Amigos? Conheci na escola e faculdade. Final de semana? Pesquisa e artigo. Madrugadas? Programando um novo projeto. Sim, essa sou eu. Mas eu não queria que isso fosse tudo sobre mim. E ultimamente tem sido. Eu não quero mais ser só um amontoado de certificados e notas. Então eu tenho me perguntado o que eu gosto de fazer, quais são minhas paixões, meus hobbies, meus sonhos. Quem eu sou quando eu não estou obcecada em tornar alguém. Eu sou muito boa amando as pessoas, mas eu sou horrível em me amar. Não seria justo eu também receber um pouco da atenção que eu entrego a todo mundo? No fim, talvez essa seja uma carta de amor. Uma declaração. Declarando o que nenhuma menina, família ou amigo poderia declarar por mim. Me prometendo coisas que somente eu posso me entregar. Eu reclamo o tempo todo como ninguém parece me enxergar realmente, mas acho que nem eu me enxergo. Eu não me escuto, eu não me sinto. Eu não sei mais ser eu. E isso é a maior dor que eu carrego de 2025. Então metas para 2026, me encontrar. Saber falar de mim por mais de cinco minutos sem precisar recorrer a coisas acadêmicas. Sim, é muito massa prêmios de congresso, ser professora de um projeto, meus índices serem ridiculamente altos, ser sempre a mais nova estranhamente adiantada na vida e ter um certificado dizendo que fui a melhor aluna da minha turma. Mas esse ano eu quero que isso seja só um fato curioso sobre mim e não toda minha personalidade. Então minha missão para 2026 é (re)descobrir quem eu sou. Daqui há um ano, na minha data oficial de escrever cartas, eu desejo estar bem comigo mesma, que eu saiba falar de mim com amor e com orgulho, que eu reconheça que sou gentil e alguém fácil de amar. Eu espero que eu esteja feliz com minha personalidade, que eu saiba falar dos meus sonhos e metas sem questionar se mereço. Que eu saiba falar das minhas paixões sem dizer verbos somente no passado. Óbvio que eu espero estar bem academicamente, mas eu sempre dou conta dessa parte, então não irei escrever metas para isso, confio em mim nesse aspecto. Uma coisa que espero também é que eu saiba me relacionar melhor com as pessoas, que eu não sinta que a qualquer vacilo vão desistir de mim, que eu seja mais paciente com elas. Que eu me sinta em paz e amada pela minha família, que eu cultive as minhas amizades, mas que também esteja aberta a ter ainda mais amigos. Que eu esteja bem sobre quem eu perdi. Se eu estiver namorando, eu espero que seja com uma menina que eu ame, que entenda que nem todas as minhas partes são fáceis de lidar, mas que veja que eu sou muito mais que esse furacão de sentimentos. E talvez a meta mais importante é que eu entenda que todo esse amor e cuidado que eu espero das pessoas, talvez só cheguem até mim quando eu mesma me entregar isso.
Acho que era isso que eu tinha a dizer por enquanto. E acho que o próprio ato de escrever essa carta já me aproxima da meta de retornar às minhas paixões, pois a escrita sempre foi meu alívio no mundo. Que eu lembre disso durante o ano. Que eu lembre de mim mesma mais vezes. Espero que quando eu ler isso aqui em 2 de janeiro de 2027, eu pense que foi um ano incrível e que eu estou bem.
Atenciosamente, Isa.