Uma carta de 30/07/2025
Querido eu, de 2028,
Espero que você esteja bem. Espero que, ao ler isso, esteja vivendo aquilo que agora, em 2025, ainda é sonho — mas um sonho que pulsa forte, que me move mesmo nos dias em que tudo parece me empurrar para trás.
Hoje, ainda sou farmacêutico, ainda estou dentro de uma realidade que carrego com dignidade, mas que não representa quem eu realmente quero ser. A farmácia foi meu plano B, mas meu plano A sempre foi claro: medicina. Mais do que isso: cirurgião pediátrico.
É isso que arde no peito, que me faz continuar estudando mesmo com cansaço, mesmo com medo, mesmo com toda a ansiedade que ainda tenta me parar.
Em 2025, minha vida ainda tem algumas amarras. Eu moro com meus pais, que não sabem tudo sobre mim — sobre minha espiritualidade, sobre minha fé em Omolu, sobre minha afinidade com o mar e com os orixás. Das dificuldades com minha sexualidade. E confesso que viver dividido entre o que sou e o que posso mostrar ainda dói bastante. Mas estou aprendendo a resistir.
A timidez ainda me prende em muitas situações. Nunca namorei. Nunca fui totalmente livre. Mas quero acreditar que você aí, em 2028, já deu alguns passos nesse sentido. Quero acreditar que você se olha no espelho com mais orgulho, que respira mais leve, que se permite ser inteiro — profissionalmente, emocionalmente, espiritualmente.
A única certeza que tenho agora é que eu não quero desistir.
Nem da medicina.
Nem de mim.
Se você conseguiu passar no ENEM, entrar na faculdade, dar os primeiros passos na medicina — me conta como foi. Me lembra de que valeu a pena.
Se ainda estiver no caminho, me conta que você segue firme. Que não se deixou vencer pela pressa ou pela dor. Que seguiu com fé, porque sua missão aqui vai muito além de um título ou diploma.
A única coisa que peço é: não me esqueça.
Não esqueça esse cara aqui, que está escrevendo com medo, mas também com coragem. Que ainda não é, mas já sente que vai ser.
Com esperança,
Você — 2025.