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Uma carta de 25/12/2025

25 de dezembro de 2025 25 de dezembro de 2026
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2625 palavras

O luto é uma bosta. 

É uma sensação horrível, cinzenta, crua, nua, fria, dura. É um machucado que não cicatriza, que fica aberto, infecciona, suja, dói, mas não sara. E o pior de tudo é que você não sabe quando ele vai surgir. Você pode ter um dia ótimo e chorar no banho a noite. Pode dormir super bem e acordar chorando, pode estar na rua e sentir seu coração se despedaçar. Pode ver um vídeo, uma série ou um filme e lembrar e chorar, ouvir uma música, pensar algo que não devia. 

O luto é um monstro que corremos desde que somos crianças. Pedimos aos nossos pais para olhar atrás das portas, embaixo da cama, no guarda-roupa. Dormimos com uma luzinha fraca ou com a porta aberta e a luz do corredor acesa. Eu mesma, eu me aninhava na cama da minha mãe com o medo, me agarrava ao seu corpo e, enfim, relaxava o meu. 

Eu sempre tive medo da morte, em suma, da minha. Eu tinha medo de dormir e não acordar, medo de comidas envenenadas, piscinas muito fundas, mares muito agitados, carros velozes, pessoas estranhas. Eu morria de medo de morrer. Eu tinha tanto medo da morte me pegar de surpresa que eu passava noites em claro, crente que se eu dormisse apenas de dia estaria a salvo. Eu sempre tive um medo sórdido da noite. Lembro que em vários momentos da minha vida eu me privava do sono para não ter medo. Passava noites em claro, produzindo, escrevendo, cozinhando, comendo, vendo séries e filmes, lendo livros, limpando casa, tudo para não correr o risco da morte me pegar enquanto dormia. A vida, e a morte, são duas entidades irônicas. 

No dia sete de dezembro, antes de dormir eu chorei, chorei copiosamente e senti uma dor avassaladora no meu peito. Senti como se meu coração estivesse sendo arrancado do meu peito por uma mão invisível, senti como se ele estivesse sendo esmagado ainda conectado a mim. Então, adormeci. 

Era domingo, ela estava no hospital havia 13 dias, que ironia. Dormi e acordei às oito da manhã, sem querer, com uma ligação da minha tia. Era meu primeiro dia de férias. Havia dito para meus alunos que, com toda a situação da minha mãe no hospital, minha cabeça estava longe, eu não estava produzindo boas aulas. Então, naquela segunda, às oito e pouco da manhã, minha tia, depois da oitava ou décima ligação, conseguiu falar comigo. Minha mãe havia partido à meia noite e cinquenta e oito do dia oito, pouco depois de eu dormir. Pouco depois de eu sentir meu coração ser arrancado e dilacerado. Eu senti tudo, até porquê ela era meu coração. Andei pelo corredor, olhei para o meu namorado em seu escritório e proferi as piores palavras que podia “minha mãe morreu.” Pronto, ali ele desligou o computador, avisou a empresa e eu voltei catártica para o quarto, me sentei na cama, ainda tentando entender o que “minha mãe morreu” significava.

“Minha mãe morreu” eu pensava.

“Minha mãe morreu” eu comecei a lacrimejar.

“Minha mãe morreu” eu falei baixinho.

“Minha mãe morreu” eu comecei a chorar.

“Minha mãe morreu” eu repeti. 

“Minha mãe morreu” eu morri. 

Diferentemente do que dizem, o dia não foi um borrão. Eu tomei banho, me forcei a comer algo e fui ao velório. Ignorei todos ao meu redor e vi ela no caixão. Parecia de cera, não parecia real, parecia uma boneca, uma manequim. Vestia sua calça jeans pequena, a camiseta do grupo de oração que gostava tanto, a blusinha de frio azul escura que usava quase como um uniforme. Estava vestida como ela, mas não era minha mãe. As feições ficaram muito mais magras depois de tanto tempo no hospital. O nariz estava mais protuberante, a pele amarelada e fria. Então pessoas me abraçaram, disseram o quanto sentiam. Eu ficava entre chorar, beber água, cumprimentar alguém. Engraçado que quando minha sogra chegou eu finalmente desmontei. Ela me segurou, tal como minha mãe me segurava quando eu desmontava. Me segurou até o final. 

Sabe qual o momento que mais dói? Quando fecham o caixão. Aquele momento eu juro, senti meu coração partir em tantos fragmentos que eu jamais irei conseguir colar junto de novo. Só de lembrar, sinto um aperto forte no peito. Esse momento dói mais do que o sepultamento em si. Quando acabou, dei carona para minha madrinha e vim embora. Tomei banho e a vida meio que seguiu sem seguir. 

Todo dia eu acordo, invento algo para fazer, já que ainda estou de férias. Mas todas as manhãs eu sinto uma falta absurda, pois era de manhã que eu mandava mensagem e ligava perguntando se tudo estava bem, falava que ia passar lá para deixar as compras e perguntava o que ela queria que eu levasse. As manhãs eram boas, pois ela acordava e nos falávamos. Eu esquecia que ela estava doente, que seus dias estavam sendo contados há um ano. Eu odiava as noites, como sempre odiei. Mas quando chegavam as manhãs e eu recebia a confirmação que a escuridão havia ido embora, tudo voltava para o lugar, a vida seguia. 

Fazem duas semanas, quase três, que não tenho confirmação nenhuma pela manhã. 

Não ligo para ninguém, mando mensagens apenas para minha melhor amiga, para a psicóloga e pra mais quem ousar falar comigo. 

Não faço mais listas do que preciso levar para ela, nem planos do que cozinhar no domingo que sei que ela vai gostar. Minha mãe adorava o frango assado do mercado, macarrão e risoto. No café da tarde ela gostava de algum docinho, pão de queijo ou algum sanduíche gostoso que eu fizesse, pães recheados também. No começo, quando ela ainda estava esperançosa, nós fazíamos planos para o natal, ano novo. Tendo certeza que ela voltaria a andar e que iríamos caminhar na praia juntas. Nós assistimos a filmes e séries juntas e eu conversava com ela, todo domingo, dos problemas que tive na semana, pedia conselhos, pedia colo, mesmo que desconfortável na cama hospitalar em seu quarto. 

Agora eu não faço planos, nem do que cozinhar. Acho que faz umas duas ou três semanas que não cozinho feijão, como o que for mais fácil. Eu gosto de lavar roupa e o quintal. Tomo muitos banhos por causa do calor e fico muito tempo deitada. Também passo a maior parte do dia vendo vídeos ou Gossip Girl. 

Ontem, véspera do Natal, passei no cemitério, a primeira de muitas vezes que farei isso agora. Chorei muito em seu túmulo, mesmo debaixo de um sol forte. Chorei até cansar e então me sentei numa sombra com meu namorado e contei pra ele como eu estava.

Acho que como uma autista adulta, tenho a péssima tendência de mascarar tudo que sinto, afinal, passei a vida toda mascarando o tempo todo. Sinto que essas semanas eu tenho mascarado todo meu sofrimento, minha saudade, minha dor. Não é um sofrimento ininterrupto, em alguns momentos eu fico bem, fico feliz quando brinco com meus animais, quando tomo café e quando vejo série. Mas ainda sim, é como se eu estivesse com um pedaço faltando. Quando penso nos planos do ano que vem, que no dia cinco de janeiro devo voltar a trabalhar, eu fico gelada. Não quero trabalhar. Não quero dar aulas, não quero ver a cara dos meus alunos, não quero montar materiais nem falar inglês. 

Os planos de fazer graduação também estão soterrados em algum lugar. Perdi totalmente a vontade de iniciar a graduação de psicologia, justo a faculdade que eu almejava tanto. 

O pior é que não posso me dar ao luxo de dizer “não quero mais trabalhar por um tempo.” Infelizmente ainda não sou rica, meu namorado ainda não recebe um salário que consiga cobrir todas as despesas. Eu preciso ajudar. E o seguro deixado pela minha mãe cobre apenas os custos de inventário e possíveis custos dos empréstimos, para que eu não perca o carro ou algo assim. Isso que eu ganho meros 2600 reais, quase nada, mas já é o aluguel da casa. 

A sensação que tenho é que eu tinha um fio condutor, que mantinha minha vida quente e movimentando. Eu tinha um motivo para querer ser boa, para querer ser uma boa professora, para querer ser independente, ter minha vida feita era uma forma de mantê-la feliz e isso me fazia muito feliz. Sei que é errado, a nossa felicidade depender de outra pessoa, mas eu não tinha mais problemas com isso. Meus planos estavam seguindo sozinhos, mas ela estava ali, vigilante como uma coruja-mãe cuidando de seus filhotes que já estão voando e saindo do ninho. Eu estava conquistando coisas e voltando correndo feliz para contar à ela, e ela ficava tão feliz por mim, tão feliz que eu brilhava mais, eu queria mais. Queria mostrar à minha mãe que eu conseguia fazer as coisas, que eu conquistava cada vez mais sonhos e que eu era feliz. Eu não sabia que minha felicidade estava tão atrelada à ela. Agora que não posso ir lá contar as conquistas, agora que não posso mais ligar para ela e nem pedir colo ou simplesmente um conselho, as conquistas parecem tão vazias, fúteis, simplórias. É como se tudo perdesse o sentido, a vontade de fazer algo perecesse na falta e saudade. 

Não quero voltar a trabalhar, nem estudar, nem ler, nem jogar, nem escrever, nem cantar, nem dançar, nem tocar instrumentos. Não quero mais fazer pães, pintar quadros, não quero mais conversar com outras pessoas, nem explicar gramática, não quero mais postar nada, não quero mais escrever livros e pesquisas. Não quero mais existir sem ela para me assistir vivendo. 

Sei que é errado, sei que é psicologicamente uma dependência, sei que eu era dependente da minha mãe emocionalmente. Sei que por conta disso meu luto rasga minha existência e me força a olhar para um espelho interno e decidir o quê, ou quem, eu quero ser a partir de agora. Passei a vida toda querendo e sendo quem ela queria que eu fosse e isso não foi um problema, eu não via isso como ruim. Fiz a faculdade que ela achava que combinava comigo, e eu adorei fazer Letras. Tentei trabalhar no que ela queria, mas acabei achando meu local profissional como professora particular, e ela gostou disso. Ela adorou quando eu pintei meu cabelo de ruiva, e sou ruiva até hoje, quase dez anos já. Ela amava meu cabelo comprido, mas adorou quando cortei. Me achava talentosa na comida, nas artes e ela incentivava. Minha mãe me pedia quadros, pães, bolos, desenhos. Pedia que eu cantasse para ela suas músicas favoritas e as tocasse no ukulele, que ela me deu para encher a casa de música. Ela adorava os casos criminais que eu pesquisava e sempre me perguntava sobre. Ouso dizer que ela amou até meu namorado, porque eu o amo, ela o amou. 

O fato de eu viver sempre querendo mostrar a ela que eu estava bem e feliz, me fazia bem, me mostrava que eu queria e conseguia fazer as coisas. E que se tudo desmoronasse, ela estaria a uma ligação de distância, eu sempre poderia voltar para seu colo. Mas agora, viver por conta própria parece tão vazio, tão sem graça, tão perigoso. Como se, caso eu errasse, agora fosse ser fatal. Não tenho mais o colo dela, não tenho mais o local protegido para voltar. Sinto que tenho que seguir sozinha e não quero. A vida perdeu a graça toda, nessa de fazer as coisas por mim. Eu sei o que posso fazer e o que sou capaz, sei tudo que consigo fazer e até mesmo o que gostaria, mas aí eu olho ao meu redor e penso que fazer tudo isso apenas por mim é tão vazio, tão seco, murcho, tão sem graça. Não vejo mais motivos para planejar coisas que ela não vai ver, que ela não irá celebrar e que eu farei sozinha, que eu viverei sozinha. 

Sei que o ciclo natural da vida é esse, um dia isso aconteceria naturalmente. Mas eu imaginava eu e minha mãe vivendo tantas coisas ainda, viajando juntas, celebrando juntas, rindo juntas, cozinhando juntas. Queria que ela me visse tornando mãe futuramente, adotando igual ela me adotou e me amou. Queria que ela visse minha casa, viajasse em meu carro, que fôssemos para fora do país juntas. Queria que ela me visse prosperando profissionalmente, lesse meus livros, minhas histórias e pesquisas. Queria que ela fosse em mais uma graduação minha, numa defesa de mestrado. Que ela conhecesse meus novos futuros amigos, que ela fosse ao meu casamento. Meu deus, eu não terei minha mãe comigo na maior parte da minha vida. Tudo que eu queria viver com ela eu tenho que viver sozinha e eu não quero. Eu quero ela comigo, se ela não está aqui parece tudo tão vazio e sem propósito. Para quê seguir? Qual o grande motivo de eu continuar se a pessoa que eu mais amei na vida não está mais aqui para seguir comigo? 

Não sei se isso é depressão, dependência emocional, depressão, só sei que é meu novo vazio, um vazio que preenche demais e cobre tudo. Tudo que eu era, quem eu sou e quem eu poderia ser, está sendo sugado para o vazio agora. Não sei se um dia isso passa, não sei se a gente se recupera, mas hoje, vinte e cinco de dezembro de dois mil e vinte e cinco, eu só queria minha mãe comigo, celebrando o natal juntas, assistindo filmes e conversando sobre como vai ser o ano novo. Mas eu estou aqui, chorando, escrevendo meus sentimentos como eu faço há anos, pensando se vale a pena continuar a caminhada ou se eu vou para sempre sentir essa dor, essa tristeza, essa falta, essa saudade. Será que vale a pena? Será que um dia eu vou amar tanto alguém quanto amei minha mãe? O suficiente para querer continuar? Porque no momento eu não amo, não quero continuar, mesmo que eu deva, mesmo que eu saiba que no fundo eu amo sim, eu amo meu namorado muito, mas ultimamente sinto medo até de perder ele, até porque se eu perder ele também, aí eu estarei completamente sozinha, mais do que estou agora. Sinto que estou perdendo tudo aos poucos, inclusive a mim mesma. Não sei como prosseguir no novo ano que irá se iniciar, não sei como voltar a querer fazer as coisas, viver a vida, conquistar a vida.



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