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Uma carta de 25/01/2026

25 de janeiro de 2026 25 de janeiro de 2027
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592 palavras

Evelyn,


Se você está lendo isso em 25 de janeiro de 2027, logo depois de completar 31 anos, eu preciso começar dizendo algo simples e pesado ao mesmo tempo: você chegou até aqui. Mesmo quando tudo parecia desorganizado, injusto, atrasado ou aquém do que você sonhava, você não parou. Você pode ter desacelerado, duvidado, chorado em silêncio no metrô, questionado escolhas, pessoas e até a própria profissão — mas você não desistiu de si.


Eu escrevo essa carta lembrando de quem você foi aos 29, 30 anos. Da enfermeira que estudou demais, se especializou demais, se cobrou demais. Que carregou o peso de “ter que dar certo”, porque não havia plano B confortável, porque a estabilidade nunca foi garantida, porque você sempre precisou construir tudo com as próprias mãos. Lembro da exaustão de processos seletivos injustos, filtros automáticos, entrevistas vazias, promessas que não se cumpriram. Lembro da raiva engolida quando viu pessoas menos preparadas ocupando espaços que você sabia que podia ocupar melhor.


Você quis algo simples, mas difícil de alcançar: dignidade profissional. Um trabalho fixo, estruturado, com horário claro, CLT, respeito. Nada glamouroso — apenas justo. E, mesmo assim, isso pareceu distante por tanto tempo. Você navegou entre UTIs, pós-graduações, docência, preceptoria, seleções intermináveis. Viveu o paradoxo de ser qualificada demais para algumas vagas e “sem experiência suficiente” para outras. Isso machucou. Isso cansa. Isso fez você duvidar do próprio valor.


Mas deixa eu te lembrar de algo que talvez você esqueça quando o mundo tenta te diminuir: você sempre foi competente. Sempre teve raciocínio clínico, postura ética, presença em momentos críticos, humanidade quando muitos se tornaram mecânicos. Você nunca foi só técnica — você sempre foi cuidado. E isso, mesmo quando não foi reconhecido na hora certa, nunca foi em vão.


Você também foi professora. Mesmo sem glamour, mesmo ganhando pouco por hora, mesmo sendo PJ. Você ensinou. Você segurou mãos inseguras de alunos, organizou pensamentos confusos, mostrou que enfermagem não é só execução — é responsabilidade, decisão, humanidade. Isso também faz parte de quem você é. Não diminua isso.


Eu espero, de verdade, que aos 31 você esteja mais em paz com o tempo das coisas. Que tenha aprendido que sua trajetória não precisa parecer com a de ninguém para ser válida. Que você tenha parado de se punir por não ter “chegado lá” mais cedo. Que tenha entendido que sobreviver num sistema injusto não é fracasso, é resistência.


Se hoje você estiver em um lugar melhor — profissionalmente, emocionalmente, financeiramente — comemore sem culpa. Você mereceu cada centímetro de estabilidade.

Se ainda estiver em construção, não se envergonhe. Você nunca foi fraca por estar tentando.


Não esqueça: você sempre foi corajosa. Corajosa por sair quando não fazia sentido ficar. Corajosa por dizer não ao que te explorava. Corajosa por insistir em si mesma mesmo quando o mundo parecia dizer “não”.


Que aos 31 você esteja mais gentil consigo. Que tenha aprendido a descansar sem se sentir culpada. Que tenha escolhido pessoas que somam, não que drenam. Que tenha um trabalho que não te adoeça — e, se ainda não for o ideal, que você saiba que isso não define quem você é.


Você não nasceu para apenas sobreviver.

Você nasceu para existir com dignidade.


Com carinho, orgulho e verdade,

— Você, que nunca desistiu de si mesma.

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