Uma carta de 21/01/2026
Olá, nós
Posterguei tudo até o momento, inclusive a escrita dessa carta que deveria ter sido no primeiro dia do ano... e que ano!
Eu sei que de alguma forma você está bem, e sei também que de alguma forma você está mal, essa é nossa existência. Espero que um certo nome bíblico não cause mais desconforto nas vias intestinais como ainda é o caso. Tem sido dolorido dar esses primeiros passos firmes em uma aceitação de esquecimento do outro em relação a nós, espero que nessa altura do caminho você esteja precisando fingir menos que está bem do que eu. A solidão ainda fica sussurrando ao nosso ouvido que somos sós? Iniportantes e avulsas? Se sim - espero que não, mas se sim - que o nosso ego megalomaníaco ainda grite suas autoafirmações do quanto somos fodas.
Eu temo que durante esse ano você tenha lidado com algumas outras perdas, já estou me preparando para ela (s) para que você esteja mais estável por aí.
Nada nos para, nada nos tem parado, nem mesmo nós. Continuamos apesar de toda dor que sentimos com cada partida e com cada nova rejeição, hoje eu já admito que a ferida de nossos pais nunca cicatrizou de fato, mas eu não desisto do amor por causa disso, espero que você ainda seja amada, porque eu não ando conseguindo me visualizar assim.
Espero que essa carta te faça rir mais do que te faça chorar.
Você tem cativado muitas pessoas, não se esforce para se afastar das novas, eu vou tentar nesse meio tempo que divide nós duas. Que você tenha escrito pelo menos uma história inteira esse ano que passou, você escritora e não - apenas - um tapete velho de sentimentos exagerado, tome seu lugar. E o projeto do doutorado? Saiu? Viva o povo brasileiro entrou mesmo? Você conseguiu esquecer as cartas que não recebeu? Conseguiu não enviar as cartas que com certeza não seriam lidas com amor? Você foi amada, nós fomos, mas precisamos nos afastar dessa ideia de retorno a um passado que não nos faz jus mais. É o único jeito de aproveitar a vida. Nos tornamos mestras e lançamos um livro pago, tomamos posse em um concurso público e fomos convidadas como autora e passamos por tudo isso em prantos, com uma saudade de um passado que foi tão lindo quanto foi breve, nos arrastanto em uma lama procurando sentir o aroma das rosas que um dia estiveram ali... Preciso que você esteja melhor que eu aí, porque aqui eu estou com a parte difícil de manter o corpo erguido e não cheirar a lama novamente.
Ah minha doce eu, espero que você tenha perdido alguns quilos, que tenha cozinhado por si só, que tenha viajado ao menos uma vez para um lugar realmente bom esse ano. E o Maria Edite? Ainda pegando fogo? Espero tanto que você não esteja queimada... mas temo que a labareda não nos poupe, então respira fundo e passe pomadinha, a gente sabe que trabalho é trabalho.
Ana Paula, Fabiana (s), Leonardo, Jô, João, Guilherme, Yuri... esses nomes ainda fazem sentido no seu presente? Tirando o último que é por pura curiosidade do que eu mesma farei, eu espero que sim. Espero que você sobreviva e floresça, somos cactos que precisam de todo cuidado, mas as jardineiras também somos nós. Trintamos!