Uma carta de 08/01/2026
Carta para mim, no futuro
Quando eu olho para essas cartas que costumo escrever, percebo algo curioso: eu era sábia. Ou pelo menos, era sábia dentro do que eu conseguia saber naquele momento. E talvez isso seja tudo o que qualquer pessoa pode ser. Porque, no fundo, eu não sei de nada.
Eu tô com medo.
Muito.
Não saber o que vai acontecer esse ano me assusta de um jeito físico — dá dor de barriga, aperto no peito, vontade de sumir por algumas horas. Eu já passei tempo demais sozinha, e é triste admitir isso. Sempre dizem que a gente precisa “aprender a amar a solidão”, mas eu cansei. Cansei mesmo.
Não é que eu não saiba ficar sozinha — eu sei. Sempre soube.
Mas existe uma diferença enorme entre saber ficar só e não querer mais estar. Eu não me entrego fácil, e quando finalmente me entrego… parece que as pessoas vêm quebradas, confusas, ou querendo algo que eu nem entendo. Às vezes dá vontade de gritar: o que vocês querem de mim? Me machucar? Eu já faço isso sozinha.
Nunca senti tanta necessidade de alguém como agora. Nunca achei que fosse precisar de um corpo quente ao meu lado pra conseguir respirar melhor. E isso me irrita, porque esse nunca foi o meu foco. Meu foco sempre foi sobreviver, pensar demais, sentir demais, escrever, estudar, entender o mundo. E eu odeio o fato de estar pensando tanto nisso agora, quando eu deveria estar olhando para o meu futuro, para os meus estudos, para o que pode me sustentar de verdade.
Então, por favor, se você estiver lendo isso depois: não abandone isso.
Mesmo que seja solitário. Mesmo que doa. Mesmo que não exista promessa nenhuma de alguém esperando no final do caminho — porque não depende só de você.
Escuta isso com atenção: você não é atrasada.
Você não perdeu o tempo certo das coisas. Não existe um “normal” que você falhou em cumprir. O que existe é uma pessoa que sente tudo com intensidade demais para aceitar relações rasas, rotinas vazias ou promessas fáceis. Isso não é defeito. É critério — mesmo quando dói.
E outra coisa importante: você não quer qualquer alguém.
Você quer segurança emocional. Presença. Alguém que fique sem te diminuir, que não te faça sentir exagerada por sentir. Não confunda isso com carência. Não é falta de amor-próprio querer companhia. O erro seria aceitar migalha só pra não estar sozinha.
Eu tenho medo de ficar sozinha até os 30. Tenho medo de acordar um dia e perceber que esperei demais. Tenho raiva de ter sido chamada de puta por quem dizia me amar, quando em dois anos eu mal toquei alguém. Eu tô exausta de ser contida, cuidadosa, profunda demais num mundo que vive tudo pela metade.
Talvez eu precise me arriscar mais.
Beijar mais.
Tocar mais.
Viver mais — não pra me perder, mas pra não endurecer.
Mas lembre disso: você não precisa virar outra pessoa para merecer amor.
Nem mais fria. Nem mais desapegada. Nem mais “normal”. Sentir demais não é um problema — só assusta quem não sabe sustentar profundidade.
E aceita essa verdade, mesmo que doa:
algumas pessoas não te perderam por falta de amor, mas por falta de capacidade. Capacidade de cuidar, de ficar, de entender. Isso nunca esteve nas suas mãos.
Você também não é incoerente por mudar de ideia.
Você cresce. Aprende. Se contradiz. Isso é sinal de vida. O problema nunca foi você não saber exatamente o que quer — foi o peso de achar que deveria saber antes do tempo.
Nem toda conexão intensa é destino.
Às vezes é só um espelho de algo que você ainda está aprendendo a dar a si mesma. Quando você entende isso, para de romantizar quem só acordou feridas antigas.
O ano escolar tá acabando, e eu sei que as responsabilidades vão chegar sem pedir licença. A vida adulta não pergunta se a gente tá pronta. Então, por favor, não esquece de viver antes disso. Não esquece de rir alto, de sentir coisas intensas, de errar um pouco sem se punir tanto depois.
Nem todo ano precisa ser grandioso.
Alguns anos só servem para te manter viva enquanto você se reorganiza por dentro. Se este for um desses, não transforme isso em culpa.
E um pedido, quase um aviso:
não abandone quem você é por medo de ficar sozinha. Você já fez isso em pequenos pedaços, e sempre doeu mais do que a solidão em si. Quem vier depois precisa caber em você, não o contrário.
Ah — e por favor:
não volte para o Roberto.
E não se iluda tão fácil com pessoas novas. Você sente fundo demais pra quem entra raso.
Lembre-se também: você é alguém que escreve para sobreviver.
Que pensa para não se perder.
Que sente para não virar pedra.
Se um dia tudo parecer parado, vazio, sem graça…
não significa que a vida acabou. Significa que algo está se preparando, mesmo em silêncio.
Você não precisa correr.
Você não precisa provar nada.
Você não está quebrada.
Você está em construção.
E, mesmo quando não acredita, isso já é suficiente.
Com carinho,
com cansaço,
com esperança mesmo fingindo que não,
você.