Tempo percorrido - 9 anos

Chuva de Grãos de Mostarda

6 de janeiro de 2026 6 de janeiro de 2036
0 curtidas
0 comentários
1056 palavras

Hey Amanda,


Tenho uma história para contar. Espero que essa carta chegue em um dia que precisar lembrar que você já foi mais beliver.


É provavelmente uma das nossas memórias mais antigas.


Provavelmente era o aniversário de alguém, não vou me lembrar de quem. Tínhamos 10/12 anos talvez.


Estávamos você, nosso irmão Natan e nossa prima Isabela, sentados no pula, esgotados depois de termos pulado, dançado, corrido, feito de tudo no pula pula que sempre era alugados nos aniversários. Ou pelo é o que me lembro.

Durante um período, quando nossos pais descobriram que dava para alugar brinquedos, eles sempre alugavam em datas comemorativas, como aniversários.

Na verdade mesmo, só em aniversários.

Sim, isso mesmo. Não me lembro de nenhum pula pula em nenhuma Páscoa.

E foi só felicidade enquanto durou.


Eu sei que depois do assuntos mais desconexos e sem contexto possíveis, de alguma forma começamos a falar sobre Deus.

Não lembro quem iniciou esse assunto e não me lembro sobre quais outros assuntos falámos. Só me lembro da nossa prima perguntar "Como vocês sabem que Deus existe? Que Ele está aqui?"


Depois de muito tempo, mais velhos, cheguei a comentar essa história com o Natan, e ele lembrou e as nossas reações maravilhadas voltaram, talvez não tão impressionadas de quando aconteceu, até porque o tempo e a perca da inocência influenciam e muito no que passamos a dar valor. Mas foi unânime, nos marcou. Talvez mais a mim, por ter uma memória péssima, e mesmo assim lembrar. Caso não seja assim que as memórias funcionem, releve.


Mas nunca vou me esquecer da propriedade e autoridade que eu usei, mesmo com pouca idade, para falar de algo que eu não sabia da complexidade, e nem tinha profundidade no assunto, quando eu disse que Deus existia sim, e Ele estava ali conosco. Meu irmão acrescentou dizendo, com a mesma autoridade, que nós não podíamos Vê-lo, mas sentir Sua presença.


Descrente, como sempre foi, nossa prima não acreditou e nos pediu para provar.


E é a partir daqui, que a minha memória se torna mais clara.


Porque respondemos, "Não sei como podemos provar para você, mas a fé mesmo no tamanho de um grão de mostarda, move montanhas"


O Natan em dos seus raros momentos geniais, deu a ideia de ela mesmo testar. Pedir uma prova.


Ela não titubeou. Isabella, olhou para o céu, como se procurando um rosto para falar, e logo em seguida gritou pedindo que chovesse granizo.


Muita coisa poderia ter acontecido. Poderia não ter acontecido nada e teríamos rido. Eu e Natan com risadas envergonhadas e ela vitoriosa. Poderíamos nem ter dado bola para a descrença dela, até porque não teria interferido em nada nas nossas vidas, e o assunto teria passado para algum outro totalmente fora desse rumo. Muitas opções, mas o que aconteceu depois... O que aconteceu depois, é o que muitos podem chamar de coincidência, podem dizer que o céu já estava mesmo nublado e estava na previsão do tempo, poderia trazer vários dados cientifícos explicando o acontecimento... Infinitas possibilidades. Muitas explicações possíveis. Muitas razões cabíveis.


Mas para nós foi Deus.


Porque assim que o seu grito findou, do céu começaram a cair, uma por uma, pequenas pedras de gelo.


E ficamos todos paralisados.

Os três.

Em choque.


No começo foram apenas algumas, como se dizendo "Preparados mesmo?", e então foi encorpando e caindo cada vez mais e mais...


As pedras começaram a se acumular ao nosso redor dentro do pula pula.

E eram reais.

Diferente de quando caiam no chão, e a cor clara do chão fazia parecer que não tinha nada. O preto da borracha que estávamos sentados, parecia deixar as pequenas pedras de gelo ainda mais aparentes, quase que reluzentes.


Tornando impossível de negar a existência.

De dizer que não existiam.

Que não estavam ali.


O estado de torpor em que estávamos passou. Até porque as pedras começaram a nos atingir também e doer com as colisões, o gelo começou a esfriar até esquentar amontados em volta, tocando nossas peles. Ou já estavam antes e a perplexidade do momento anestesiou os nossos sentidos. Não sei dizer.


Eu só me lembro de nos olharmos maravilhados, os três, e de sairmos correndo com foco em sair de baixo da chuva de granizo, dando gargalhadas de felicidade, do momento inédito. Os 3 embasbacados com a resposta flash sobrenatural.


Tivemos um delay, até a minha pessoa e a pessoa do Natan nos recuperamos.

Porque apesar de termos crido antes, ficamos em maravilhados também, óbvio!

Não sei exatamente o que esperávamos, talvez uma resposta a longo prazo, um acontecimento mais demorado que marcasse a vida dela, não sei.

Mas com certeza não foi a entrega hiper mega rápida do pedido da Isabella.

Até porque, se soubéssemos, teríamos induzido ela a algo mais conveniente certamente...


Eu só lembro no momento da correria dizeres como "Viu viu" (Esse provavelmente eu, gostamos de estar certas) "Corre" "Aí minhas costas" (Esse provavelmente o Natan, sempre o mais azarado) "Ele ouviu mesmo" "Corre" "Eu falei"


É uma memória boa.


Desde desse acontecimento muita coisa mudou. Não temos mais essa fé a muito tempo.


Não sei em qual momento perdemos. Não me lembro de ter essa fé mesmo quando éramos usadas no templo, quando éramos exemplos, ou alguma coisa parecida.


Saímos dentro daquela bolha faz um tempo.





Mas queria deixar registrado, para poder me relembra algum dia. Quem sabe em condições melhores.

E espero que posso fazer sentindo aí no presente.


Essa foi a carta de hoje.


Um beijo para a Amanda do futuro.


Ps: ²⁰ E Jesus lhes disse: Por causa de vossa incredulidade; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível. 


Mateus 17:20






Compartilhe nosso site: